Rússia "isolada" na ONU após aliados avaliarem que 'linhas vermelhas' foram ultrapassadas

Fonte diplomática refere que a Rússia está a fazer um esforço para conseguir obter algum apoio.

A Rússia encontra-se isolada na Organização das Nações Unidas (ONU), tendo sido abandonada até por importantes países aliados, que consideram que foram ultrapassadas 'linhas vermelhas' com a guerra na Ucrânia, disse à Lusa fonte diplomática.

Contudo, e apesar de "normalmente não se importar de ser vista sozinha em vários processos", desta vez a situação é diferente e a Rússia realmente está a fazer um esforço para conseguir obter algum apoio, assegurou a mesma fonte, que falou sob anonimato acerca dos bastidores dos intensos esforços diplomáticos desencadeados após a invasão da Ucrânia por forças russas, a 24 de fevereiro.

"Desta vez, a Rússia está a importar-se com o isolamento e aí está um óbvio efeito político das resoluções da Assembleia-Geral da ONU, que não têm efeito jurídico, mas que têm esse impacto político. Está a importar-se e está a notar-se não só na linguagem corporal dos diplomatas russos nessas votações, mas também noutros processos e isso é muito importante", disse.

Exemplo desse isolamento foram os recentes resultados de duas resoluções na Assembleia-Geral das Nações Unidas, que por duas vezes durante o corrente mês obtiveram uma esmagadora maioria contra a Rússia.

A 02 de março, por iniciativa da União Europeia, a Assembleia-Geral da ONU aprovou um primeiro texto condenando a Rússia por ter invadido a Ucrânia em 24 de fevereiro.

A resolução foi descrita como "histórica", por ter obtido 141 votos a favor, 35 abstenções e apenas cinco votos contra.

Cerca de 20 dias depois, em 24 de março, a mesma Assembleia-Geral aprovou, com uma esmagadora maioria de 140 votos, uma resolução responsabilizando a Rússia pela crise humanitária na Ucrânia devido à guerra.

Ambas as resoluções obtiveram cinco votos contra: Rússia, Bielorrússia, Síria, Coreia do Norte e Eritreia e as abstenções oscilaram entre 35 e 38, dos 193 Estados-membros das Nações Unidas.

A fonte diplomática destacou que abstenções de países aliados como Irão, Nicarágua, República Centro Africana e Mali significam que Moscovo foi demasiado longe e ultrapassou aquilo que seriam 'linhas vermelhas' para esses países.

"O Irão é um forte exemplo de abstenção, ou a Nicarágua. A República Centro Africana e o Mali, onde o grupo privado de segurança russo Wagner está muito ativo, abstiveram-se. Mesmo esses países abstiveram-se e a Rússia está a olhar para isso. Mesmo os poucos países que seria naturalmente previsível que estivessem com a Rússia, mesmo numa situação destas, não estão. Ou seja, até mesmo para alguns países, a Rússia chegou demasiado longe, ultrapassou aquilo que seriam 'linhas vermelhas'", avaliou.

Na sede da ONU, em Nova Iorque, a Rússia, que tem "um papel tradicionalmente muito forte" em várias esferas, tem adotado agora uma postura mais suave noutras discussões, como na 5ª Comissão, que cuida de assuntos orçamentais e administrativos das Nações Unidas, e na qual Moscovo passou a adotar um posicionamento mais discreto, por "preocupação com o isolamento".

"A Rússia está preocupada com esse isolamento, pelo facto de se ter metido numa guerra que, em termos legais e de direito internacional, 'não tem ponta por onde se lhe pegue'", avaliou a fonte diplomática.

"Portanto, até um país como a Rússia, que se aguenta bem sozinho em negociações internacionais, sente que precisaria de algum apoio em alguma área. Seria interessante observar que áreas vai escolher a Rússia, não só no âmbito das Nações Unidas, mas no âmbito de outras negociações multilaterais e até relações bilaterais, para tentar criar as pontes que neste momento vê destruídas à sua volta", advogou.

E exemplo concreto do impacto desse isolamento tem sido o próprio embaixador da Rússia junto da ONU, Vasily Nebenzya, que desde que a guerra começou e o seu núcleo de apoio se começou a reduzir, viu também mirrar a sua postura corporal, sendo frequente vê-lo cabisbaixo a pronunciar-se no Conselho de Segurança ou na Assembleia-Geral ou a evitar declarações à imprensa a todo o custo, algo que no passado não acontecia.

A Rússia lançou em 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que matou pelo menos 1.151 civis, incluindo 103 crianças, e feriu 1.824, entre os quais 133 crianças, segundo os dados mais recentes da ONU, que alerta para a probabilidade de o número real de vítimas civis ser muito maior.

A guerra provocou a fuga de mais de 10 milhões de pessoas, incluindo mais de 3,8 milhões de refugiados em países vizinhos e quase 6,5 milhões de deslocados internos.

A ONU estima que cerca de 13 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária na Ucrânia.

A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas e políticas a Moscovo.

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