Sem água e sem comida, mas com o sonho de rumar à Alemanha. Quatro sírios escondidos em bosque polaco

Quatro sírios escondem-se da polícia bielorrussa na floresta mais fria da Polónia. A ajuda chega discretamente, e, apesar dos sonhos, com o avançar das horas, o medo só aumenta.

Da mochila, Kasia Wapaa vai retirando latas de atum, figos, pão, baterias portáteis, cigarros e roupas secas. A polaca integra uma rede de ajuda aos migrantes, e procurou, durante mais de uma hora, quatro sírios escondidos na floresta Bialoweza, com uma área de 150 mil hectares, conta o jornal El País. O bosque tornou-se, nos últimos dias, no principal ponto de passagem para os milhares de migrantes que cruzaram ilegalmente a fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia.

Quando a ativista os encontra, os migrantes não mostram nem entusiasmo nem medo. "Who wants trousers? Who needs pantalones?", questiona ao grupo.

Khalid, o mais velho, repete várias vezes a pergunta: "Madmun?" Em árabe, é como dizer: "É de fiar?" A língua não é o único estorvo que trava o diálogo. As conversas são quase sussurradas, para evitar captar as atenções dos mais de 20 mil soldados que vigiam a zona.

Os quatro homens sírios, escondidos na floresta, em Podlaskie, a região mais fria da Polónia, chegaram à clareira depois de quase duas semanas na Bielorrússia. Todos são provenientes de Damasco, conta o mais novo do grupo, Kassem, de 24 anos, ao jornal espanhol El País. "Os soldados bielorrussos, quando veem os migrantes na floresta, batem-lhes, e soltam os cães. Vim aqui parar por causa do medo e do mar. Tenho medo do mar. Por isso, decidi ir para a Bielorrússia."

Há vários dias que não bebem água potável. A comida acabou no dia anterior.

"Tínhamos de fazer alguma coisa. Começámos a recolher bens, mas depois surgiu o problema da distribuição aos refugiados, e decidimos ir para a floresta." Agora que os alcançou, Kasia Wapaa explica que foi difícil chegar ao esconderijo de quem tudo faz para passar despercebido. "Por vezes, temos de cruzar um pântano. Por vezes, temos de ultrapassar árvores caídas. Às vezes, fazemos isto durante o dia. Noutras, tem de ser de noite. Por vezes, encontramos pessoas que tentam camuflar-se na floresta, fazer o mínimo de ruído possível. Nem sequer usam telemóvel porque a luz pode brilhar demasiado."

Só os moradores podem entrar na região, devido ao estado de emergência imposto em setembro, numa reação polaca ao afluxo sem precedentes de migrantes, mas Kasia Wappa quer ajudar os homens retidos na floresta, e promete ajudá-los a chegarem à Alemanha e Holanda. Diz-lhes: "Tentem contactar uma organização chamada Dialogue, que ajuda sírios. Pensem bem em como fazê-lo de forma segura. Não entrem em pânico, aguardem. Prometo que não vos esqueço, é impossível esquecer."

Neste momento milhares de migrantes, oriundos de vários países do Médio Oriente, estão retidos na fronteira da Bielorrússia com a Polónia. Vários países que integram o Conselho de Segurança da ONU acusam a Bielorrússia de, com esta instabilidade na fronteira para a União Europeia, tentarem desviar a atenção das crescentes violações dos direitos humanos no país.

O Conselho de Segurança da ONU também acusa este regime reeleito num sufrágio fraudulento de instrumentalização orquestrada de seres humanos postos em perigo para fins políticos.

O regime do Presidente bielorrusso tem sido acusado de violações contra a liberdade dos cidadãos, dos seus opositores e da imprensa, e a UE tem reagido com fortes sanções.

O Governo polaco está em alerta em relação à possível chegada em massa de mais migrantes à fronteira com a Bielorrússia. A Polónia já tinha declarado em setembro estado de emergência em duas províncias da fronteira com a Bielorrússia para conter o fluxo de imigrantes irregulares, por ação direta do Presidente bielorrusso, que ordenou a emissão de vistos.

Pelo menos dez migrantes já morreram. Na origem destas mortes estarão situações de hipotermia.

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