"Será uma guerra de pelo menos um ano e só acaba se Putin morrer, for morto ou matarmos todas as tropas
Guerra na Ucrânia

"Será uma guerra de pelo menos um ano e só acaba se Putin morrer, for morto ou matarmos todas as tropas russas"

Quando Oleksandr Syenkevych recebeu a TSF, Mykolaiv ainda não tinha sido atacada pela segunda vez no dia. Mas o presidente da câmara revelou que era essa agora a cadência dos bombardeamentos russos. O ataque chegou pouco depois de terminar esta entrevista: dez mortos e 46 feridos em Mykolaiv, o novo alvo do exército de Putin.

Nem o enérgico presidente da câmara promete estar pronto para defender a cidade que era o maior estaleiro da armada soviética. Sentado na mesa de um pequeno café pousou na mesa a Glock que traz sempre à cintura e desenhou, para o repórter, o mapa da estratégia para parar os russos, que já estão a menos de 30 km da cidade.

Mykolaiv foi atacada nas últimas horas. Já são conhecidos os efeitos das explosões?

Uma pessoa morreu e cinco ficaram feridas no ataque desta manhã. Algumas dessas pessoas estavam numa paragem de autocarro. Outras num supermercado quando as bombas as atingiram.

Os bombardeamentos são cada vez mais frequentes...

Na última semana fomos bombardeados uma vez por dia. Nos últimos dois dias passámos a ser bombardeados duas vezes por dia. Os alvos atingidos são sobretudo prédios civis. Casas onde vivem pessoas, escolas, jardins de infância, hospitais. Não foi atingido qualquer alvo militar ou estrutura industrial. Somos atacados com bombas de fragmentação. Que aumentam muito o raio de impacto. Felizmente não têm causado muitos feridos. Ontem e hoje duas pessoas morreram e cerca de trinta ficaram feridas.

De onde é que vêm os mísseis? Do Mar Negro? De posições russas em Kherson? Da Crimeia?

Temos a certeza de que vêm de Kherson. O lançamento de hoje foi às 7h01 e os rockets atingiram o alvo às 7h04. Ou seja, três minutos é o tempo que um rocket demora de Kherson até à nossa cidade. Depois durante 24 segundos fomos bombardeados.

Na sexta-feira vi rockets que caíram sobre o rio. As pontes da cidade seriam os alvos?

Não creio. Essas armas só servem para atacar pessoas. Mykolaiv tem duas pontes e estão armadilhadas, em último caso fazemos explodir as pontes. Mas o tabuleiro de uma delas é giratório e o da outra eleva-se. Se tivermos de fugir, abrimos as pontes.

Teme ter uma semana mais dura?

No início da guerra não diria que estávamos preparados. Mas desde essa altura a situação mudou muito. Fizemos muitos pontos de bloqueio, trincheiras. Também preparámos as nossas tropas: o exército, a guarda nacional, as tropas da defesa territorial, que é composta por pessoas que nunca tinham servido nas forças armadas, todos estão prontos para defender o país. Estamos preparados para a luta.

Quando é que começou a preparar esta guerra?

Comecei a preparar esta guerra em 2014. Comecei a andar sempre com uma arma, a disparar com uma Kalashnikov.

Kherson terá caído por causa de um traidor. Teme que existam sabotadores dentro da cidade?

Não. Nós conhecemos os sabotadores, temo-los debaixo de olho. Kherson não estava preparada para a guerra. Nós recebemos muitas informações dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, da Europa: "A Rússia está a juntar tropas, a Rússia está a preparar-se para a guerra." Vimos que todas as embaixadas se deslocaram e isso devia ser um sinal. Mas ninguém quis acreditar. Ninguém quis acreditar que no século XXI podia haver uma guerra.

Antes da guerra, Mykolaiv tinha 500 mil habitantes. Quantos é que já abandonaram a cidade?

Não temos o número exato. Mas pelos consumos de água e pela recolha de lixo calculamos que 30 a 40% dos habitantes já tenham saído de Mykolaiv. Ou seja, 150 mil a 200 mil pessoas terão saído da cidade.

Os serviços continuam a funcionar?

Por enquanto os hospitais estão todos a trabalhar de forma normal, tendo em conta a situação que vivemos. A cidade tem água, gás e eletricidade. Desligamos o aquecimento há alguns dias, mas tudo o resto permanece normal. Todas as infraestruturas, instalações industriais continuam a trabalhar.

A ajuda internacional que tem recebido é suficiente?

Nós agradecemos antes de mais a todos os que acolhem os nossos refugiados. Depois a todos os que nos enviam ajuda humanitária. Temos grandes reservas de produtos secos, massas e conservas, para o caso de virmos a ser sitiados pelas tropas russas, como aconteceu no início da guerra. Estamos a receber algumas ajudas de que não precisamos, como roupas. Gostava de dizer a todos os que enviam roupa que não o façam. As pessoas deixaram a cidade, portanto não temos ninguém para as usar. Recebemos algumas pessoas de vilas próximas. Damos algum apoio, mas depois as pessoas seguem para Odessa, para outras zonas da Ucrânia ou mesmo para fora do país.

Estava a pensar na ajuda militar...

O mais importante para nós é o apoio militar. Precisamos de mais equipamentos pesados, de mais armas terra-ar. As pessoas por toda a Ucrânia pedem à NATO e à União Europeia que fechem os céus. Mas nós sabemos que isso é impossível. Precisamos deste tipo de armas e ao usá-las nós mesmo criamos uma zona de exclusão aérea. Isso é muito importante para nós, porque como vê, os rockets continuam a cair, a matar pessoas. Isto não é guerra. Isto é nazismo. Eles querem matar tantos ucranianos quantos conseguirem.

Teme que em breve a cidade volte a cair nas mãos do exército russo?

Tive medo nos primeiros dias, quando eu estava desapontado (ou talvez frustrado) com esta guerra. Mas depois unimo-nos, compreendemos quem são as pessoas que temos no nosso exército, e sabemos que mesmo que eles entrem na cidade nós vamos matá-los a todos. Porque nós conhecemos a cidade. Claro que é muito difícil lutar com uma Kalashnikov contra um tanque, mas estamos à espera deles para lhes dar uma apresentação calorosa de Mykolaiv.

Uma vitória em Mykolaiv pode abrir caminho a um contra-ataque para Kherson?

Estamos a preparar-nos para isso. Estamos à espera que eles venham para podermos fazer um contra-ataque. Penso que não vão conquistar Mykolaiv. Claro que eles querem chegar a Odessa. Eles precisam de ocupar a região sul para fecharem as saídas para o Mar Negro. Mykolaiv era uma cidade militar. Agora é uma cidade portuária. Passam por aqui 25% de todos os transportes da Ucrânia. Portanto isto é uma porta económica. Eles bombardearam o nosso porto. Não se trata de um porto militar, é usado por várias empresas chinesas, europeias ou norte-americanas. Portanto, bombardearam o porto só para bloquear a nossa economia.

Mykolaiv é a cidade mais próxima de Kherson. Há pouca informação sobre o que se passa lá...

Sabemos que ocuparam Kherson, não deixam as pessoas circular livremente. Mas felizmente não estão a matar civis, por enquanto. O que é, digamos, bom.

A vitória está próxima?

Não acredito que o fim esteja próximo. Penso que será uma guerra de pelo menos um ano. Esta guerra só pode ser parada em três situações: Putin morre naturalmente; Putin é morto por alguém do seu círculo; nós matamos todas as tropas dele e seguimos em frente para a Rússia.

Não acredita no sucesso das negociações?

Não acredito nesse tipo de soluções porque Putin é verdadeiro e grande estalinista. E Estaline nunca parou. Matou muitos dos seus, mas nunca parou. Esta não é só uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia. É também uma guerra entre duas civilizações. O Ocidente, que explora o espaço, constrói foguetes, que procura a cura para o cancro. E a outra cuja evolução parou na era soviética. No passado heroico. Eles dizem que ganharam a Segunda Guerra Mundial. Mas se repararmos o país mais afetado pela segunda guerra e que perdeu mais população foi a Ucrânia. Um combate entre pessoas que querem ir à lua, construir foguetes e pessoas que param no tempo. Que vivem no passado.

Não o preocupa que no final da guerra haja tantas armas nas mãos de civis?

Não penso muito nisso. É algo que teremos de resolver no futuro. Agora temos outros problemas. Claro que, tal como outras nações, vamos ter um período de desmilitarização. Mas entendo que melhor ou pior devemos ter um exército de reservistas. Todos devem ter no armário uma arma, um colete à prova de balas e um par de botas. Depois quando os russos vierem é só assobiar, e aparecemos todos. Faça frio ou calor. Cada um veste a sua farda e sabe qual é o seu posto, para onde tem de ir e o que fazer.

Se a Rússia mobilizar soldados naturais da Crimeia eles podem sublevar-se e ajudar a Ucrânia?

Não. Não acredito. Olhe bem para os russos. Eles são uns bárbaros. Executam pessoas com tiros na cabeça. Matam pessoas que estão a fazer desporto. Matam mulheres civis, crianças. Em Bucha, mataram um velho que estava a andar de bicicleta, etc. E o pior de tudo. Vemos as notícias russas e dizem que esses mortos são os nazis ucranianos. Tudo o que nós vemos aqui eles contam ao contrário. Tentam mudar a realidade. As pessoas na Rússia são completamente estupidificadas. A propaganda russa tem um braço muito longo. Vivem como na alemanha em 1939.

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