Noreena Hertz
entrevista com Noreena Hertz

"Solidão é crise de saúde pública mundial. As redes sociais são as empresas de tabaco do século XXI"

Na parte de fora de uma estação de comboios, hora de ponta, em Houston, Estados Unidos da América, Noreena Hertz fez as contas às pessoas que por ela passavam, a correr ou com os olhos vidrados num ecrã de telemóvel, sem a olhar. Ao fim de 50, parou a contagem e o exercício. Entrou em salas de conversas virtuais e de jogos online, e imaginou, sem grande esforço, um mundo a caminhar para um convívio delegado aos hologramas das pessoas.

Este é o século da solidão. As relações são minadas pelo neoliberalismo feroz num mundo com mais interações virtuais do que olhos nos olhos. Noreena Hertz, economista britânica e uma grande crítica das redes sociais, começou a escrever "O Século da Solidão - Como Restaurar as Ligações Humanas" quando a pandemia ainda não surgia no horizonte. Hoje a economia ainda afasta mais as pessoas, há mais gostos, mas menos afeto. É o que conta a autora Noreena Hertz, considerada pelo jornal The Observer "uma das principais pensadoras a nível mundial", nesta entrevista com a TSF.

A solidão foi um fenómeno que a dada altura a surpreendeu, que a levou a escrever. Em que momento se apercebeu da dimensão do problema?

É uma boa pergunta... Será que me surpreendeu? Eu tenho estudado a solidão nos últimos cinco anos, muito encorajada por três coisas: a primeira foram os meus alunos. Eu dou aulas na universidade há 20 anos, e, há cerca de cinco anos, reparei que cada vez mais estudantes chegavam ao meu gabinete e confidenciavam-me que se sentiam sozinhos e isolados. Isto foi algo de novo, algo que até então não tinha visto, de todo. Fiquei muito abalada com isso.

Por isso, sim, foi surpreendente para mim. Outra coisa que foi surpreendente para mim, no contexto da solidão, foi que eu estava a investigar o crescimento dos populistas de extrema-direita no mundo. Eu queria perceber por que é que as pessoas votavam em políticos como Donald Trump, Bolsonaro, no Brasil, e políticos que os seguiam, como Matteo Salvini, na Itália, e Le Penn, em França. Comecei a entrevistar esses eleitores, e um fator comum que ficava evidente nas suas histórias foi o quão sozinhos e solitários se sentiam. Isso foi surpreendente: a solidão a emergir de um grupo muito diferente de pessoas.

Depois, comprei uma assistente virtual, a Alexa, da Amazon, e comecei a observar as minhas próprias interações com a Alexa, com este dispositivo que vive na minha cozinha. Percebi que estava a ficar cada vez mais apegada a este objeto inanimado, e isso fez-me pensar como definimos esta economia da solidão, toda esta economia feita de bens e de serviços e que é desenhada para nos fornecer conexões e aliviar a solidão, que, mesmo antes da pandemia - como eu descobri -, já estava a escalar. Mais uma vez, fiquei surpresa por haver um mercado tão vasto e uma procura tão grande por produtos que aliviam a solidão.

Três aspetos muito diferentes deram-me consciência da solidão, de formas muito distintas, mas num período de tempo muito curto. Todos eles foram surpreendentes, e fizeram-me querer aprofundar o fenómeno, e analisar o quão grave ele era, por que é que isso importava e o que poderemos fazer para o corrigir. Assim que comecei a mergulhar na informação, apercebi-me muito rapidamente de que estávamos no meio de uma crise mundial de solidão, mesmo antes da pandemia.Claro que a pandemia só a tornou ainda mais significativa e grave.

Em Portugal, 20% das pessoas entre os 18 e os 35 anos diziam, em 2020, que se sentiam sozinhas. Olhando para a realidade portuguesa, a solidão aumentou muito entre estudantes do ensino secundário. Foi aumento de 60%, entre 2012 e 2018, e isto é muito semelhante ao que vemos no resto do mundo. No Reino Unido, um em cada cinco millenials não tem um único amigo. Nos Estados Unidos, 60% das pessoas que vivem em lares não recebem uma só visita. Por isso, cedo me apercebi de que havia uma grande crise em curso, uma crise que está a afetar muitas pessoas, e isto, com a pandemia, piorou muito significativamente.

O que viu mudar nas relações humanas desde que era criança até agora?

Temos visto uma transformação muito significativa na forma como os humanos interagem uns com os outros nas últimas décadas. A primeira realidade a que temos assistido, ao longo dos últimos 30 ou 40 anos, é as pessoas a fazerem menos coisas umas com as outras. Isto tem acontecido ao longo de um período de tempo. Menos pessoas têm estabelecido uniões, menos pessoas comem juntas, mais pessoas vivem sozinhas, menos pessoas vão à igreja. Por isso, temos visto, desde os anos 1980, as pessoas a fazerem menos coisas juntas.

Outra situação que vemos, no que toca às relações interpessoais, é, desde os anos 1980, uma mentalidade cada vez mais individualista a ganhar espaço. A forma como pensamos as nossas relações com os outros mudou. Na nossa sociedade, fomo-nos tornando muito egocêntricos, em vez de nos tornarmos mais solidários. Até vemos isto nas letras da música pop, em que as palavras "nós" e "nosso" foram ultrapassadas por palavras como "eu", "a mim mesmo" e "meu". Somos menos preocupados com o coletivo e com os interesses da comunidade, e muito mais preocupados com os interesses próprios. Claro que isso teve um impacto na forma como interagimos uns com os outros e nas qualidades que valorizamos uns nos outros. Vivemos num tempo em que qualidades como a competitividade e agressividade são hipervalorizadas, e qualidades como o cuidado com o semelhante e a bondade têm sido desvalorizadas.

Outra mudança fundamental - uma que realmente acelerou ao longo da última década, mas especialmente durante a pandemia - foi passarmos a fazer coisas sem ser necessário o contacto humano. Mesmo antes da pandemia, as pessoas já faziam as compras para a casa online, já encomendavam comida, em vez de irem a um café, e faziam as aulas de ioga via Zoom. Mesmo antes da pandemia, isto existia, mas, durante a pandemia, durante os últimos 20 meses, mais ou menos, o que vimos foi uma aceleração máxima das tarefas que não necessitam de contacto físico.

Agora compramos, comemos, temos encontros e comunicamos muitas vezes apenas através dos ecrãs, e, no processo, acabamos por nos privar das interações presenciais.

Claro que, durante a pandemia, houve períodos em que não tivemos sequer escolha, porque era a única forma de podermos fazer certas coisas. Mas estou preocupada com estas microconexões que nós tínhamos quando íamos a um café e falávamos com o funcionário durante 30 segundos, ou quando íamos ao ginásio e falávamos com o rececionista por dez segundos. Estas microconexões têm um papel muito importante no sentido de nos ajudarem a sentir menos sozinhos e mais ligados uns aos outros. E até mais importante do que isso, talvez, é que é nessas interações cara a cara, quando estamos na mercearia e vemos a senhora mais velha a tentar chegar a um frasco de compota e a ajudamos, quando estamos com o aluno de ioga que pensamos onde colocar o nosso tapete, para não interferirmos com a atividade dos outros, esses momentos do nosso dia são quando colocamos em prática capacidades como a reciprocidade, civismo, a capacidade de pensar nos outros e não só em nós próprios.

Neste mundo cada vez mais sem contactos, não temos a oportunidade de praticar estas competências, e acredito que isto terá sérias consequências no tipo de sociedade em que viveremos e no tipo de democracia que teremos. O meu medo é de que, quando sairmos da pandemia, a conveniência do 'contactless' será tão forte que, no processo, o sentido de comunidade será trocado voluntariamente por isso.

De alguma forma encara o sistema económico atual e o 'capitalismo selvagem' como um tipo de ditadura, ou, pelo menos, como uma agressão à democracia?

Depende daquilo que acreditamos que deveria ser a democracia. Se acreditamos que a democracia não é apenas quem grita mais alto ser ouvido, e se pensamos que a democracia não é apenas a voz das massas a ser refletida para elas, mas que é algo mais, que é algo que, no seu cerne, tem um compromisso com a proteção dos direitos das minorias e com assegurar que qualquer pessoa na sociedade, seja quem for, tenha o que tiver, tenha nascido onde quer que seja, tenha oportunidades... Se acreditamos que isso é que é a democracia, e deveria ser - a proteção dos mais vulneráveis, a proteção das minorias também -, se é nisso que acreditamos, então o neoliberalismo, por vezes, não respondeu a essas necessidades.

Mas não é culpa do capitalismo, por assim dizer, e é importante reconhecer isso. Não sou anticapitalista, de todo. Acredito que o capitalismo é o melhor instrumento para a inovação e crescimento. Mas isto é o fracasso de um projeto político, o neoliberalismo, que não assumiu que o mercado tem limites e que há momentos em que o Estado tem de intervir, e que o crescimento em si não significa a distribuição da riqueza, a não ser que políticas e programas sejam colocados em marcha para assegurar que isso acontece.

O problema do capitalismo neoliberal é que, ao colocar tanta fé no mercado como mecanismo de distribuição, falhou na proteção dos mais vulneráveis.

Aquilo de que realmente precisamos no futuro é de recalibrar o capitalismo, para que seja mais ligado ao cuidado, e esta não é uma visão utópica. Estamos a ver alguns governos a pôr isto em prática neste momento, na Nova Zelândia, por exemplo. A primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, decidiu avançar para o país ter um programa cujo orçamento se chama 'o orçamento do bem-estar', e não estão a focar-se apenas em métricas tradicionais e neoliberais como o crescimento. Também se estão a focar no bem-estar dos seus cidadãos, em quão sozinhos se sentem, em quanto confiam nos outros, em quanto confiam no Governo. Estão a olhar para essas métricas, tentando garantir que melhoram também noutros números.

As gerações nascidas no Século da Solidão serão certamente diferentes das que sabem a diferença entre um mundo mais conectado e outro que é mais distante. Que efeitos prevê ver nas personalidades dos que nasceram nos últimos anos?

Uma das mudanças mais fundamentais no que diz respeito às crianças e adolescentes, ao longo da última década, é, claro, a adoção das redes sociais, e os mais jovens transferiram para lá muita da sua socialização com os amigos. E o que vemos é que isto tem consequências muito, muito significativas na solidão. É bastante claro, em Portugal, por exemplo, onde vemos este aumento de 60% da solidão entre os estudantes do ensino secundário, entre 2012 e 2018.

Pode fazer-se um paralelo absoluto com o uso das redes sociais pelos alunos do secundário durante esse período.

É algo que vemos em todo o mundo. Vemos grandes aumentos na solidão dos adolescentes e dos mais jovens, desde há 20 ou 15 anos, quando as redes sociais começaram a tornar-se ubíquas.

Na minha investigação, quis mesmo aprofundar mais isto, e entrevistei adolescentes de todo o mundo. As histórias deles eram muito comoventes. Um rapaz de 14 anos, o Peter, disse-me que publicava coisas no Instagram e ficava à espera, na expectativa de que alguém fosse gostar das suas publicações. Contou-me que, quando isso não acontecia, sentia-se completamente invisível. A Claudia foi uma rapariga que me contou que as amigas não lhe tinham dito que iam sair da escola. Ela estava em casa, no quarto, a navegar nas redes sociais, e viu-os a sair, a divertirem-se sem ela, e ela disse que se sentiu muito excluída, muito sozinha. Escondeu-se no quarto e não foi à escola durante uma semana.

Havia casos de miúdos a serem excluídos no passado, mas a diferença é que hoje a vergonha da sua exclusão é muito visível e muito pública. A sua exclusão é transmitida entre os seus pares, 24 horas por dia. E os adultos das vidas destas crianças nem têm consciência de que isto acontece.

Também parte da razão de os mais jovens serem a geração mais solitária hoje em dia - o que pode ser surpreendente para as pessoas - é o quão tóxico é o discurso nas redes sociais. No Reino Unido, um terço das mulheres entre os 18 e os 24 anos experienciaram abusos no Facebook; 65% dos estudantes universitários sofreram ciberbullying, e, claro que se és atacado ou vítima de bullying, vais sentir-te mais sozinho.

Isto é verdade não só para os adolescentes, mas todos o sentimos, não sentimos? Quando fazemos scroll nos feeds das redes sociais nos nossos telemóveis, é muito fácil pensarmos que todas as outras pessoas são mais populares do que nós. Parece sempre que as outras pessoas se divertem mais, que têm mais amigos e que aparecem em selfies com mais gente do que nós. Por isso, em comparação, é muito fácil sentirmo-nos mais sozinhos.

Em muitos aspetos, as empresas que detêm as redes sociais são as empresas de tabaco do século XXI. Penso que todos os dias aprendemos mais coisas sobre o quão graves são as suas políticas e sobre os estragos que estão a fazer. A minha esperança é de que os governos em todo o mundo irão interceder. No Reino Unido, temos hoje legislação a ser analisada pelo Parlamento - o 'online safety bill' - que atribuirá penalizações muito severas às empresas das redes sociais, devido aos prejuízos para a saúde mental das pessoas que estão nestas plataformas.

Em Israel, legislação semelhante está neste momento a ser apresentada ao Parlamento. Por isso, penso que neste momento tudo desemboca na legislação das redes sociais, e a direita e a esquerda estão a unir-se nisso. Não se unem em muitos assuntos, mas este é um deles.

Fala-se muito dos impactos na saúde mental, mas a verdade é que, e até separando de uma forma muito primária, a solidão tem efeitos graves no organismo, na saúde física, e o seu livro expõe muitas dessas consequências...

Quando pensamos na solidão, muitas vezes pensamos, de facto, nas consequências para a saúde mental, e essas consequências são reais e graves. Sabemos que à solidão estão associados riscos mais elevados de desenvolver depressão e ansiedade e a riscos extremos no que diz respeito ao suicídio. Mas os impactos na saúde física são um pouco menos conhecidos. Ainda assim, a solidão tem efeitos piores do que a obesidade, é pior do que não nos exercitarmos, e é tão prejudicial à nossa saúde física como fumar 15 cigarros por dia. É, em muitos sentidos, a maior crise de saúde pública, da qual não estamos a falar.

Dá-nos um risco 20% superior de ataques cardíacos ou AVC, e um risco 64% mais elevado de desenvolver demência. E por que é que a solidão é tão má para a nossa saúde física? É porque os nossos corpos desenvolveram um mecanismo de alarme. Quando estamos sozinhos, os nossos corpos entram num estado de grande alerta, e a nossa pressão sanguínea sobe. Os nossos níveis de cortisol e de stress aumentam, o ritmo cardíaco aumenta... Toda a sinalética do nosso corpo nos avisa: 'isto não é uma boa situação.'

Esta é uma resposta evolutiva, é uma reação causada pela evolução no nosso organismo, porque, claro, nos tempos pré-históricos, estar sozinho muitas vezes significava a morte. Era necessário caçar em grupo e viver numa povoação com outras pessoas, por uma questão de segurança. Mas, na vida contemporânea, permanecemos neste estado de não respondermos ao alerta, não reagimos a ele. E é por isso que a solidão é tão má para a nossa saúde física: porque permanecemos neste estado de elevada pressão sanguínea, pulso acelerado, valores elevados de cortisol e o stress a fazer-se dentro das nossas veias.

O que é preocupante é que a investigação mostra que períodos relativamente curtos de solidão, períodos abaixo dos dois anos, têm um impacto na saúde e na esperança de vida. Temos uma redução da esperança de vida, mesmo que só tenhamos uma experiência de solidão por dois anos, e, dado aquilo por que todos passámos nos últimos dois anos, é uma situação muito preocupante.

E há países no mundo que ainda estão imunes a esta, como chama, crise de saúde pública, que é a solidão? Lugares no mundo cuja cultura seja mais conservadora, e com valores mais tradicionais, mais enraizados na família e na comunidade, por exemplo?

Um dos aspetos mais surpreendentes que descobri, ao investigar plenamente o assunto, foi o quão global este fenómeno é. Temos visto crescer esta crise da solidão a locais tão longínquos quanto África, Índia e China, tal como na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, que tem sido mais tradicional. Mas o que é verdade, o que é definitivamente verdade, é que comunidades que são muito conectadas, que se mantêm muito próximas, e com a fé a desempenhar um papel importante, muitas vezes são protegidas deste nível de solidão.

No meu livro, escrevo sobre uma comunidade, a comunidade Haredi. É a comunidade de pessoas religiosas, de judeus que usam um chapéu preto; é uma comunidade muito próxima, que trabalha em conjunto, celebra em conjunto, ora em grupo, vai à sinagoga em grupo... É uma comunidade que realmente tem entreajuda em tempos de crise ou tempos de necessidade. É uma comunidade que, a cada sexta-feira, junta-se para o Sabbath. Esta comunidade, que é menos saudável em muitas medidas mais óbvias, como os seculares de Israel, tende a fumar mais e a fazer menos exercício, costuma comer de forma menos saudável. Esta comunidade tem carências de vitamina D, porque cobrem muito os corpos, e por isso não têm um grande contacto com a luz solar. No entanto, esta comunidade até vive mais anos do que os restantes israelitas. Quem olhou para este fenómeno acredita que a principal razão é este grupo de pessoas ser tão unido, e por isso os níveis de solidão são muito baixos.

Vemos isto noutras regiões no mundo, onde temos comunidades radicadas na fé que se apoiam e que se ajudam. Penso que a questão que isto levanta não é como introduzimos ou reintroduzimos a religião em países onde ela se tornou menos importante, mas sim o que os líderes religiosos do século XXI podem ser e como criamos um sentido de pertença real e significativo, sem termos de ter esses ideais de fé.

Estes são os grandes desafios que nós, enquanto sociedade, precisamos de nos colocar, tal como os governos e as empresas. Não só enquanto indivíduos podemos ter um papel nisso.

Estamos a tornar-nos mais narcisistas e, por conseguinte, mais resistentes a ideias diferentes?

Nós definitivamente estamos a tornar-nos mais fechados nas nossas 'piscinas narcisistas', onde as visões dos outros tendem a ser meros reflexos e ecos de nós próprios e não vozes diferentes. Esta é uma tendência que com certeza vemos, e é mais uma em que as redes sociais têm de assumir uma responsabilidade, porque, nas plataformas sociais, os algoritmos direcionam-nos para pessoas com perspetivas como as nossas, e, por isso, tornamo-nos residentes de câmaras de eco em que é como nos ouvíssemos a nós mesmos.

As redes sociais são parcialmente ou completamente responsáveis por isto, e é realmente muito prejudicial para a sociedade, porque, se só nos rodearmos de pessoas como nós, como é que conheceremos e quereremos saber de pessoas diferentes de nós e do seu futuro?

Uma das iniciativas sobre as quais escrevo no meu livro é uma iniciativa que aconteceu na Alemanha e que tinha como objetivo medir esta tendência. Foi iniciada por alguns jornalistas que trabalhavam num jornal, começaram a ficar muito preocupados com o quão polarizado se encontrava o debate na Alemanha, e queriam fazer algo quanto a isso. Começaram uma busca, em todo o país, por pessoas que estivessem dispostas a encontrar-se presencialmente, durante duas horas, com alguém com um ponto de vista radicalmente oposto, para uma troca de ideias. Milhares de pessoas voluntariaram-se para este programa, e, por toda a Alemanha, em grandes jardins, em cafés ou em parques, as pessoas encontravam-se, emparelhadas pelo jornal local, numa espécie de Tinder político, como lhe chamaram.

Havia pessoas com ideias anti-imigração a conversarem com pessoas a favor da imigração, pessoas que eram contra o Euro a encontrarem-se com pessoas que eram a favor, sindicalistas a encontrarem-se com presidentes de empresas. O que foi notável nesta experiência foi que, em apenas duas horas de encontro, que era o estipulado, em apenas duas horas, as pessoas saíram a sentirem-se muito mais ligadas umas às outras. Tinham muito mais clareza acerca do que o que as unia a pessoas que antes categorizavam como completamente diferentes.

No final, disseram que estavam muito mais dispostos a convidar outra pessoa com essas ideias para um convívio social que estivessem a organizar. E, mais interessante e mais importante ainda, depois de realizarem a experiência, passaram a assinalar que confiavam nos alemães de uma forma geral.

Temos de nos assegurar que quebramos esta cadeia de câmaras de eco narcisistas. Temos de interagir e fazer coisas com pessoas que são diferentes de nós, não apenas para termos experiências pessoais mais ricas, mas também pelo bem da democracia, porque, quando não conhecemos o outro, é muito fácil demonizá-lo.

Antes de iniciar a minha pesquisa, eu era uma pessoa que se sentia sempre muito ocupada e muito apressada, a ir correr para os lugares, a viver numa cidade grande. 'Vamos, vamos, vamos.' E eu sentia que não tinha tempo para parar e falar com o carteiro durante 30 segundos ou conversar com o funcionário do bar ou com as pessoas que trabalham na caixa de supermercado. Mas uma das lições, enquanto investigava para o meu livro, foi o papel destas microconexões em fazerem-nos sentir menos sozinhos e mais ligados uns aos outros e em manter a democracia inclusiva, em que pensamos nos outros. É importante praticar a conversa com estranhos.

À medida que caminhamos para este mundo distópico, é importante que não nos percamos no processo, que não percamos o convívio presencial, que é tão crítico para todos nós.

O que é que, nas cidades, promove este isolamento?

As cidades podem ser lugares muito solitários para muitas pessoas, o que, à primeira vista, pode parecer estranho, porque as cidades estão cheias de pessoas. Mas não há nada mais solitário do que estar num mar de gente que está a passar por nós a correr, com os auscultadores postos, as cabeças coladas aos telemóveis e a nem olhar para nós. Esse é um sentimento de grande solidão. Como parte do estudo para o meu livro, eu permaneci na parte de fora de uma das estações de comboios mais concorridas em Houston, e contabilizei as pessoas que passavam por mim sem sequer olharem para mim. Depois de 50 pessoas, parei de contar, porque 50 pessoas tinham passado por mim sem sequer olharem para mim e foi uma experiência de grande solidão.

Nas cidades, as pessoas andam a correr. Sabemos que a velocidade com que as pessoas andam nas cidades aumentou em 10% nas últimas duas décadas. Aliás, quanto mais rica for a cidade, mais rapidamente as pessoas caminham. E, quanto maior for a densidade populacional, menor é o civismo dos cidadãos.

Em muitas cidades também, a subida dos preços das rendas significa que as pessoas, muitas vezes, não conseguem manter-se em determinado lugar durante muito tempo, e, por isso, há uma infinidade de pessoas que não sabem os nomes dos vizinhos.

Uma das coisas que aconteceram durante a pandemia, e que foi positiva, foi que muitos de nós que não sabíamos os nomes dos nossos vizinhos, antes da pandemia, agora sabem.

Que impactos da pandemia acredita que se manterão a longo prazo?

Penso que aquilo que estamos a ver são duas tendências muito contraditórias a emergirem. Uma é o crescente estilo de vida 'contactless': fazer muito mais coisas a partir dos telemóveis, fazer compras, comer, ter encontros virtuais e ter aulas no Zoom, em vez de interagirmos presencialmente. Esta tendência acelerou durante a pandemia, e penso que continuará a evoluir nesse sentido nos próximos anos. Mas, ao mesmo tempo, o que temos visto é um aumento da carência e da falta de contacto humano e da comunidade. Isto aconteceu no mundo virtual, durante a pandemia, quando não tínhamos outra hipótese: 12 milhões de pessoas assistiram ao concerto de Travis Scott no Fortnite. E uma das coisas mais fascinantes é que, à medida que as restrições foram sendo levantadas e as pessoas passaram a poder fazer certas coisas, vimos as pessoas a correrem de volta para os ginásios, para os cinemas e para os festivais de música, porque, em última análise, somos animais de convivência, somos predispostos a conectarmo-nos. Está no nosso ADN, e as ligações virtuais simplesmente não têm a mesma qualidade e profundidade como as presenciais. Por isso, teremos de ver como é que estas tendências contrárias entre si se irão combinar. Acredito que a carência por relações e ligações humanas só se agravará depois da pandemia, porque, depois de um período de escassez, ficamos com fome. No fundo, sofremos uma grande privação social, e agora estamos em necessidade.

Só que a conveniência da vida 'contactless', na qual podemos fazer tudo a partir de casa, também parece sedutora. Essa é a tensão que assistiremos nos próximos tempos, penso eu. A minha esperança é de que o sentido de comunidade prevaleça, não só por nós, indivíduos, mas também para a sociedade, de uma forma geral.

Nesta velocidade da vida moderna, é também possível que as pessoas se estejam a perder da sua identidade, naquela componente da identidade que se vê ancorada no sentido de comunidade?

O que temos visto nos últimos anos - e também nisto as redes sociais têm um papel preponderante - é um aumento da pressão para nos vermos como marcas, como algo para vender, como algo que podemos criar e aperfeiçoar no mercado para conseguir seguidores. Com isso, arriscamo-nos a ficar cada vez mais desconectados daquilo que julgávamos ser a nossa essência autêntica.

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