"Surto" de violência em Moçambique em debate no Parlamento Europeu

Eurodeputados portugueses apelam à atenção internacional para a actual onda de violência em no norte de Moçambique.

O assunto está hoje em debate, na sessão plenária depois de vários eurodeputados portugueses terem alertado para a situação.

O eurodeputado socialista Carlos Zorrinho que é um dos autores da resolução que deverá ser aprovada esta manhã, apela à acção imediata da União Europeia, para que a situação não se degrade ainda mais.

"É preciso exigir mais do Governo moçambicano, do diálogo com a sociedade civil, das instituições internacionais, exigir mais dos países vizinhos de Moçambique, que também tem demonstrado uma estranha paralisia em relação a este caso", defendeu o eurodeputado, perante a onda de violência que classifica como "insustentável".

"Há muitas forças contraditórias a atuar no terreno. Não sabemos exatamente qual é o nó górdio da questão. A verdade é que o Governo moçambicano se tem mostrado impotente para fazer face ao surto de violência. Há fatores de radicalização e de aproveitamento religioso de alguns comportamentos. Há fatores eventualmente ganância económica fragilidade do Estado e é preciso actuar", defendeu, em declarações à TSF.

O tema foi colocado na agenda do Parlamento devido à insistência de eurodeputados portugueses. O social democrata Paulo Rangel confessou até surpresa pelo desconhecimento, em Bruxelas, do "surto" de violência em Moçambique.

"Quando tivemos a audição na comissão de Negócios Estrangeiros fiquei atónito com a ignorância sobre esta matéria do Serviço de Ação Externa. Tinham um conhecimento de toda a situação moçambicana, que é uma situação muito difícil e até desesperada, mas não deste novo problema de conflito religioso artificial que não existia e foi criado por forças que vieram de fora", lamentou.

"Neste momento existe uma total invisibilidade sobre um drama humanitário brutal, no norte de Moçambique. Portanto, nós temos já seguramente mais 1.500 mortos, teremos - seguramente mais - mas pelo menos 250 mil deslocados, e não há qualquer apoio, nem qualquer atividade internacional no sentido de ajudar e de socorrer estas pessoas", relatou.

"Elas estão a ser objeto de atentados terroristas, atentados jihadistas do Daesh, que, como se sabe, já tinha atuado muito fortemente e está a atuar no Sahel e depois na zona do Corno de áfrica, e agora para Moçambique para uma zona onde há uma comunidade muçulmana relevante, mas que é uma comunidade que sempre teve as melhores relações com as comunidades cristãs e até mais animistas etc que existem naquela região. Pensa se que isso está ligado também ao facto de neste momento esta província que é uma das mais pobres de Moçambique e do mundo Cabo Delgado ter no fundo as reservas de gás que são maiores que as do Qatar", comentou Paulo Rangel.

O Eurodeputado Carlos Zorrinho, que preside a Assembleia África, Caraíbas e Pacífico quer a aprovação no parlamento europeu da resolução em que apela por exemplo "ao combate à a pobreza, às violações dos direitos humanos, à degradação do ambiente e do clima de impunidade", que identifica como "causas profundas do terrorismo".

"Pedimos à União Europeia que dialogue, que ajude, que mobilize, que garanta que as empresas europeias que atuam no território são também parceiros de desenvolvimento. No fundo, temos que discutir o tema, porque há pessoas que estão a sofrer. E, temos que fazer alguma coisa para que isso não continue.

No debate, a eurodeputada Marisa Matias alertou que "a situação em Moçambique agravou se muito nos últimos anos, e a descoberta de enormes reservas de gás - as nonas maiores do mundo - só veio agravar a situação e aumentar os níveis de corrupção".

"Atualmente com a pandemia em resultado de desastres naturais, há sete vírgula nove milhões de pessoas a necessitar de assistência. Assistimos a uma enorme tragédia humanitária que precisamos de responder. Em Cabo Delgado já morreram mais de mil e quinhentas pessoas e a riqueza dos recursos naturais do país tem levado a que multinacionais compitam como abutres para ter acesso à região", disse, citando "o exemplo da Total francesa que continua com planos de exploração como se nada estivesse a acontecer [e] como se nada houvesse".

Já a comissária europeia responsável pelas Parcerias Internacionais, Jutta Urpilainen começou por revelar que "o Governo [moçambicano] e a UE abriram um diálogo político focado em desenvolvimentos humanitários e questões de segurança em Cabo Delgado".

"O recente relatório da Amnistia Internacional é extremamente chocante. Todas as alegações, incluindo as que envolvem membros das Forças Armadas de Defesa e da polícia, devem ser investigados de forma transparente e efetiva, com total respeito pelos direitos legais tanto das vítimas como dos acusados", defendeu.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de