"Trabalhar com António Guterres tem sido dos maiores prazeres da minha vida"

É o enviado especial do secretário-geral da ONU para os oceanos. Peter Thomson diz que com a eleição de Biden, o pacto ecológico europeu e os compromissos da China estão a mudar a maré internacional.

Embaixador Peter Thomson, o regresso dos EUA aos Acordos de Paris é uma boa notícia?

"Sim, podemos vê-lo dessa forma. Tem havido uma mudança na maré internacional, se quisermos colocar a questão num sentido oceânico. Tivemos algumas notícias muito positivas recentemente. Desde o compromisso do presidente Xi, em setembro do ano passado, para emissões zero da China a partir de 2060; o Pacto Ecológico da União Europeia; a eleição de Joe Biden nos Estados Unidos e o regresso do país aos Acordos de Paris, tudo são boas notícias.

Se tivesse de escolher um desafio principal em relação aos oceanos, qual seria a sua escolha e por quê?

Os gases antropogénicos com efeito de estufa são o maior inimigo não só da mudança climática como também das leis da biodiversidade, e do declínio da saúde dos oceanos. Sabemos que a saúde dos oceanos está em declínio, a desoxigenação está a aumentar, tal como o aquecimento dos oceanos, o que leva à morte dos corais e à subida do nível dos mares. Tudo isto, em primeira instância, está ligado aos níveis de gases antropogénicos com efeito de estufa que atiramos para a atmosfera.

O mar faz parte da sua vida desde sempre, nasceu nas ilhas Fiji. Algumas vez imaginou que enfrentaríamos problemas tão urgentes em relação ao mar e aos oceanos no nosso tempo de vida?

Não. A minha vida sempre foi muito ligada ao Oceano. Sempre viajei muito de barco, os meus pais viajavam muito de barco. Uma vida sempre muito ligada ao oceano. Tem lados positivos e lados negativos. Mas uma coisa é certa: há muito tempo que percebi que a saúde dos oceanos estava em perigo. Desde logo pela poluição dos plásticos: comecei desde logo a perceber quando o lixo de plástico, desde sacos a isqueiros de plástico começaram a dar à costa. Era eu ainda um miúdo de escola primária. Foi aí que tive a minha introdução à Humanidade. E mesmo para a mente de uma criança de escola, o descarregamento de material indestrutível parecia óbvio que era algo que seria problemático para nós no futuro. Depois, pouco depois, nos meus vinte anos, recordo que ao caminhar na praia começámos a ver o lixo de plástico formar uma espécie de linha de costa, quando antes não havia nenhum.

Outra questão foi a morte dos recifes de coral. Quando vives numa ilha, o oceano é o teu recreio para brincar. Ia para o recife fazer mergulho todos os fins de semana, era o que mais nos dava uma ideia da alegria de viver neste planeta. Quando nos meus vinte anos, regressei ao mesmo local para mergulhar e vi o recife morto, foi como ver uma cidade bombardeada e completamente arrasada. Muito problemático. Ou seja, desde muito cedo fiquei consciente dos problemas dos oceanos e desde que cheguei a Nova Iorque, às Nações Unidas, juntamente com outros embaixadores das pequenas ilhas e de países como Portugal, tenho lutado para travar o declínio da saúde dos oceanos.

Em 2016, o ciclone Winston atingiu a costa das Fiji. A tempestade tropical mais intensa já registada no Pacífico Sul, gerou um caminho de devastação por todo o país, destruindo 40.000 casas e causando danos de 1,4 mil milhões de dólares, pouco mais de mil milhões de euros. Este tipo de eventos climáticos extremos estão a ser efetivamente cada vez mais frequentes?

Sabe, há muito tempo que nos disseram que o aquecimento global iria conduzir a tempestades tropicais mais frequentes e mais ferozes. Sabemos que as tempestades tropicais são geradas pelo aquecimento dos oceanos. Já sabíamos das previsões que iríamos ter mais tempestades e mais fortes. Isso agora tornou-se uma evidência. Não só no Pacífico Sul, mas também nas Caraíbas, no sul dos Estados Unidos.

Nas Fiji nos últimos dois meses já tivemos dois grandes ciclones; podemos aqui ver prova evidente das alterações climáticas. Mas é olhar para o continente africano e ver o que está a acontecer com a desertificação, ou ir a sítios como a Califórnia e a Austrália e ver os fogos incontroláveis; facilmente começamos a ver que as previsões da ciência sobre o que iria acontecer ao clima já estão aqui connosco.

Acabar com a pesca ilegal e não regulamentada é essencial para garantir uma economia azul sustentável? E é também vital para atingir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável para o Oceano, ODS14?

O objetivo de desenvolvimento sustentável 14, que é um objetivo universalmente acordado pelos membros das Nações Unidas em 2015, define a conservação e o uso sustentável dos recursos do oceano. Dentro disso, há dez metas e uma das metas diz respeito à pesca ilegal e às práticas pesqueiras danosas, apelando ao seu fim. Há outra meta que diz respeito aos subsídios à indústria pesqueira. Não são assuntos pequenos, estamos a falar de dinheiro público, que é colocado sob a forma de subsídios, em frotas pesqueiras industriais, que vão perseguir espécie em diminuição ou extinção de peixe selvagem. É um facto científico. Sabemos que há vinte mil milhões de dólares de peixe ilegal a ser apanhado todos os anos. Há muito trabalho a fazer, desde as cadeias de abastecimento ao consumidor individual, que deviam rejeitar a ideia de estar a roubar o oceano através da pesca ilegal e de métodos pesqueiros nocivos.

Quais serão as diretrizes do acordo Global de biodiversidade na conferência da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica que deve ser aprovada nos próximos meses... o que podemos esperar desse acordo?

Obviamente que é um acordo muito importante para reverter a perda de biodiversidade, que está a atingir uma crise existencial para a Humanidade. Eu não estou a exagerar, o secretário-geral das Nações Unidas António Guterres afirmou que o mundo está em guerra com a natureza e temos de fazer a paz. E as perdas de biodiversidade, com mais de um milhão de espécies em perigo de extinção, é uma parte substancial dessa crise.

Há uma Convenção das partes para a Convenção da Diversidade Biológica, que vai decorrer mais lá para o final do ano na China, E uma das provisões do acordo-quadro que esperamos que lá seja adotado é que deveríamos estar a proteger trinta por cento do planeta, terrestre e oceano.

Espero que o aspeto dos 30% em 2030 inscritos na convenção possam ser adotados, para que possamos avançar e, no caso dos oceanos, criar áreas protegidas em todo o mundo, tanto em alto mar como nas zonas económicas exclusivas.

Como é que tem sido trabalhar com António Guterres como secretário-geral da ONU?

Tive o privilégio, enquanto presidente da Assembleia-Geral, de fazer o juramento dele como Secretário-Geral, algo que me orgulha muito. Ele chegou e tem tido anos difíceis lá, com o maior país contribuinte, pelas posições e atitudes que tomaram, mas com a chegada do presidente Biden, penso que isso são coisas do passado.

Trabalhar com António Guterres tem sido dos maiores prazeres da minha vida. Ele tem uma compreensão maravilhosa da história humana, e gosto sobretudo quando ele põe as notas de lado e fala com o coração. Tem um sentido excelente de onde viemos, onde estamos e para onde precisamos de ir para o futuro das gerações futuras.

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