Trauma psicológico dos que conseguem chegar a Pemba. "Nunca pensaram ver tamanhas atrocidades"

Margarida Loureiro, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, tem-se deparado, no terreno, com um cenário de trauma, choque e penúria. Os deslocados após os ataques em Pemba "viram os seus entes queridos serem mortos à sua frente, as suas casas e todos os seus pertences serem queimados, terem de fugir e sofrer violações sexuais".

É num estado de "trauma psicológico" e completa penúria que os que fogem de Palma chegam a Pemba. As pessoas, desprovidas dos bens que antes tinham, só envergam o choque difícil de ignorar, segundo conta à TSF a responsável na capital da província de Cabo Delgado do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

Chegam ao outro lado de barco, mas também em voos humanitários, e têm à espera várias organizações humanitárias que lhes asseguram os apoios mais básicos. Margarida Loureiro, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados em Pemba, começa a ouvir o eco de "pessoas que começam a falar e começam a chorar", de "pessoas que estão em estado de choque" e que, "quando se apercebem de que já estão em segurança, sentem um certo alívio". Não conseguem exprimir-se, "só dizem que aquilo que viram foi um horror e que nunca pensaram ver tamanhas atrocidades", conta a responsável do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. "Viram os seus entes queridos serem mortos à sua frente, as suas casas e todos os seus pertences serem queimados, terem de fugir e sofrer violações sexuais."

Além do "trauma psicológico", as pessoas que chegam a Pemba enfrentam a escassez: tudo lhes falta porque tudo perderam. A fuga aos ataques não lhes deu tempo para salvar nada. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) é uma das organizações que trata de lhes assegurar o básico de subsistência.

"Estamos a reforçar a nossa equipa no terreno", admite Margarida Loureiro, face à extensão das necessidades. Estão a caminho pessoas dos escritórios de Maputo para apoiarem nos trabalhos.

Trata-se de uma atividade que tem por objetivo assegurar que os direitos fundamentais e que os serviços básicos cheguem a estes moçambicanos. O apoio é feito, não só junto das vítimas de violência sexual - na maioria, crianças e mulheres -, como nas áreas da saúde, do "abrigo condigno" e de entrega de bens essenciais. Um esteio para dormir, uma rede mosquiteira de proteção, uma lona para revestir as habitações provisórias e kits de cozinha são alguns dos objetos distribuídos e que ajudam a conferir a mínima normalidade num cenário de caos.

Os deslocados de Palma juntam-se a outros que, ao longo dos últimos meses, fugiram dos ataques do Daesh em Cabo Delgado. Já são 700 mil. O ACNUR tenta garantir alimentos, mas a ajuda não chega para matar a fome.

"Há situações de desnutrição - isto falando das 700 mil pessoas que estão deslocadas -, e é muito difícil assistir toda a gente." Por isso, Margarida Loureiro admite que o alvo são grupos muito específicos, como crianças desacompanhadas, que necessitam de ajuda para se alimentarem, pessoas portadoras de deficiência, também por terem ficado feridas durante os ataques, e pessoas idosas. O auxílio não chega para já a todos. "Não lhe posso garantir isso", responde, assim, a representante da organização com fins humanitários.

Elementos do ACNUR estão esta terça-feira e estarão nos próximos dias no porto e no aeroporto de Pemba a aguardar a chegada de mais deslocados.

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