Três quartos das mulheres jornalistas já foram vítimas de violência online

Este relatório contou com o testemunho de 900 jornalistas de 120 países, com 173 entrevistas em profundidade e uma análise das ameaças feitas a duas jornalistas.

Um relatório da UNESCO mostra que 73% das mulheres jornalistas já sofreram violência online, incluindo ameaças de violência física, sexual e aos seus próximos, dados que mostram como as mulheres são limitadas na sua liberdade de expressão.

O relatório "The Chilling: Global trends in online violence against women journalists", em português "O arrepio: tendências globais na violência online contra mulheres jornalistas" foi esta sexta-feira divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) de forma a assinalar o Dia de Liberdade de Imprensa que se celebra na segunda-feira.

Este relatório contou com o testemunho de 900 jornalistas de 120 países, com 173 entrevistas em profundidade e uma análise das ameaças feitas a duas jornalistas Maria Ressa, nas Filipinas, e Carole Cadwalladr, no Reino Unido, com a análise de 2,5 milhões de publicações em diferentes redes sociais contra estas duas mulheres,

"Este relatório mostrou-nos elementos preocupantes. A violência em linha tem impactos concretos fora da internet. Um nível elevado das mulheres questionadas falaram em problemas de saúde mental ou até autocensura. Esta violência impede as mulheres de exercerem a sua liberdade de expressão", explicou Guilherme Godoi, chefe da área da liberdade de expressão e segurança dos jornalistas na UNESCO, em declarações à agência Lusa.

A violência online tem um verdadeiro impacto no trabalho jornalístico, 38% das mulheres decidiram reduzir a sua presença online, 11% tiveram de se afastar alguns dias do trabalho para recuperar das ameaças, 4% mudaram de trabalho e 2% abandonaram mesmo a profissão.

Quanto aos efeitos da violência, segundo as jornalistas entrevistadas, há uma passagem à vida real com 20% das mulheres a relatarem ataques físicos. Os ataques online sobem ainda de tom caso uma mulher jornalista seja negra, indígena, judia, árabe ou lésbica.

Os temas de trabalho em que as jornalistas são mais atacadas são igualdade de género (49%), política e campanhas eleitorais (44%) e direitos humanos e políticas sociais (31%).

Estes ataques, olhando para os 2,5 milhões de publicações contra Maria Ressa, que fundou o jornal "Rappler" nas Filipinas e investiga casos de corrupção, e Carole Cadwalladr, jornalista de investigação que entre outros temas, ganhou o prémio Pulitzer pelo seu trabalho no caso da Cambridge Analytica, são coordenados e cada vez mais sofisticados.

Segundo o relatório, muitos destes ataques são mesmo "organizados por atores políticos" e nem sempre as mulheres jornalistas falam destas experiências, não recebendo apoio interno das suas redações para exporem situações de violência online.

Assim, segundo Guilherme Godoi, a resposta tem de ser coordenada.

"A construção de políticas públicas nesse caso é uma construção que tem de considerar a complexidade do problema por parte de todos os parceiros. Parte da solução tem a ver com o envolvimento dos poderes judiciais e dos Ministérios Públicos. Há países onde há uma perseguição por parte de políticos locais ou nacionais, mas que o poder judicial tem independência para agir. As plataformas de internet podem contribuir enormemente intensificando as políticas de proteção a estas jornalistas", referiu.

No caso de Ressa e Cadwalladr, o maior vetor de ataques online é o Facebook, já que nalguns países, como as Filipinas, é também a maior rede social. Outros ataques foram feitos através do Twitter.

A UNESCO quer evitar o cenário "catastrófico" em que as mulheres decidam não ser ou deixar de ser jornalistas devido às perseguições online e, portanto, consideram que cabe também a todos os cidadãos reconhecerem o problema e baterem-se pela liberdade de imprensa e de expressão colectiva.

"É inaceitável que as mulheres sejam atacadas só por serem mulheres e jornalistas", concluiu Guilherme Godoi.

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