Troca de prisioneiros entre Ucrânia e Rússia "foi muito significativa, mostra que há vontade de negociar"

A guerra na Ucrânia, o discurso de Putin e a mobilização de reservistas, a contestação nas ruas e a importância da troca de prisioneiros são temas da entrevista TSF com Tiago Ferreira Lopes, professor de Diplomacia da Universidade Portucalense.

O professor de Diplomacia da Universidade Portucalense, Tiago Ferreira Lopes, defende em entrevista à TSF que a troca de prisioneiros entre Rússia e Ucrânia, feita esta semana, pode abrir novas portas de diálogo no conflito, até porque mostra uma vontade disso mesmo.

"A única hipótese de alterações será tentar voltar à mesa negocial. Esta troca de prisioneiros foi muito significativa porque mostra que há vontade de negociar, o caminho para fazer concessões e troca de prisioneiros está aberto", explica o docente.

Embora alguns analistas tenham apontado a iniciativa como um "sinal de fragilidade de Moscovo, que o é", o professor aponta também que fica plasmada a vontade de "ir para a mesa negocial".

O Kremlin acedeu a libertar "mais de 200 prisioneiros em troca de 55", mas contas destas não podem fazer-se numa lógica de "uma por uma", assinala.

"É óbvio que nestes 55, alguns dos prisioneiros têm um elevado valor político para a Rússia, como o ex-deputado que entretanto foi libertado. Aí, obviamente, as vidas não contam uma por uma, o cálculo numa troca de prisioneiros não é feito cabeça por cabeça e é importante isso ficar claro", realça Tiago Ferreira Lopes na TSF.

Desta troca saiu também, realça, um outro "facto novo que tem sido pouco sublinhado: um novo mediador, a Arábia Saudita", que aparenta ter "contornado a Turquia".

"Ainda esta semana, Putin e o príncipe herdeiro Bin Salman estiveram ao telefone para se congratularem pelo modo como a troca de prisioneiros foi bem sucedida. Parece que há novos posicionamentos que irão ter efeitos nas próximas semanas e nos próximos meses", antevê.

Vem aí o inverno

Mesmo depois do discurso em que Putin anunciou a mobilização parcial de russos, a contra ofensiva da Ucrânia continua, mas Tiago Ferreira Lopes avisa que a capacidade russa não pode nem deve ser subestimada, em especial com o inverno aí à porta.

Além da aptidão que a Rússia já mostrou para "reorganizar-se e posicionar-se no terreno", o fator inverno, assinala o professor, deve estar presente nas mentes de todos.

"Em geral, o inverno tende a ser favorável à Rússia, que o usa ciclicamente. Basta ler um pouco de História russa, basta ir do século XIX à contemporaneidade, nem é preciso a ciclos anteriores, para perceber como a Rússia consegue, muitas vezes, usar o frio a seu favor", avisa.

E se o inverno pode ser favorável ao Kremlin no terreno e nos combates, também a nível diplomático e económico pode trazer novos trunfos. O frio "vai levar a escolhas na Europa que são muito complicadas" e os primeiros efeitos já parecem sentir-se.

"Os europeus poderão começar, a partir daqui, a pressionar os governos não para apoiar a Rússia - não me parece que o caminho seja esse -, mas para desapoiar ou apoiar cada vez menos a Ucrânia", argumenta Tiago Ferreira Lopes, citando o caso específico da primeira-ministra da Estónia, "que já por duas vezes quase ficou sem governo, neste ano, à conta do conflito".

Kaja Kallas disse aos estónios que "têm de preparar-se para a possibilidade de apagões parciais durante o inverno, porque a Rússia pode desligar a tomada", um alerta que foi replicado pelo governo da Letónia.

"É muito provável que, daqui para a frente, no Leste da Europa comecemos a ter este tipo de dinâmica", algo que vai "obviamente levar a população para a rua como já tem acontecido".

Nas últimas semanas houve protestos, embora "pouco mediatizados no Ocidente", que encheram as ruas da Chéquia, da Eslováquia e, mais recentemente, da Áustria. A mensagem da população é a de que os governos têm, primeiramente, de proteger quem os elegeu "e não necessariamente de proteger governos estrangeiros".

"É essa dinâmica que acho que o Kremlin está a tentar capitalizar", conclui.

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