A Turquia é, desde o ano passado, o maior investidor externo na Ucrânia
Tensão Rússia-Ucrânia

Uma faca de dois gumes. Turquia, o país que defende a Ucrânia mas não quer enfurecer a Rússia

Perante o escalar da tensão nas últimas semanas entre a Rússia e Ucrânia, a Turquia é um dos países que tem seguido o evoluir dos acontecimentos com maior atenção. Ankara defende a Ucrânia e critica um possível avanço russo. Há poucos dias comemorou os 70 anos como membro da NATO com uma garantia de lealdade para com os aliados ocidentais, mas ao mesmo tempo procura não enfurecer a Rússia, com o qual teria muito a perder.

No papel não há dúvidas: a Turquia é um membro da NATO, recentemente reforçou o alinhamento com a posição da Aliança Atlântica e defende publicamente a Ucrânia na crescente tensão com a Rússia.

Na realidade, a Turquia olha para a situação como uma faca de dois gumes. E não se quer ferir em nenhum deles.

Mais do que a luta entre dois grandes blocos - o Ocidente e a Rússia - os olhos da Turquia estão centrados na própria Ucrânia. O vizinho do Mar Negro transformou-se, nos últimos anos, num parceiro estratégico de grande valia, e manter uma Ucrânia estável - e independente - é de todo o interesse de Ankara.

A Turquia é, desde o ano passado, o maior investidor externo na Ucrânia, totalizando mais de 4,5 mil milhões de dólares. O volume de trocas comerciais chega aos cinco mil milhões. E, no início do mês, o presidente turco, Recep Tayyp Erdogan, visitou Kiev e assinou um protocolo que prevê a duplicação do volume de negócios entre os dois países.

A juntar ao comércio há ainda a área da defesa. A Ucrânia é um dos clientes dos drones turcos Bayraktar TB2, que foram inclusivamente usados no leste do país contra os separatistas russos.

Mas a cooperação não se fica pelos drones. Passa também pela produção de componentes por parte da indústria ucraniana. Em suma, os dois países ficam a ganhar.

Tudo razões para a Turquia defender a Ucrânia e a sua soberania. Quando visitou Kiev ainda este mês, o presidente Erdogan chegou mesmo a oferecer-se para mediar o conflito e promover um encontro entre o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e o presidente russo, Vladimir Putin.

"Para finalizar a crise entre dois países que são nossos vizinhos no Mar Negro e nossos amigos, a Turquia está pronta para fazer a sua parte. A Turquia pode receber uma cimeira ao nível dos líderes ou um encontro técnico, e enfatizei isso ao presidente ucraniano" garantiu.

A reaproximação à Nato

A Turquia celebrou recentemente os 70 anos da adesão à NATO e a mensagem não podia ter sido mais clara.

"Esperamos que os nossos aliados continuem a demonstrar uma atitude inquebrável de unidade e um espírito de solidariedade que constitui a pedra fundadora da NATO", afirmou num comunicado o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlüt Çavuşoğlu, reafirmando mais uma vez o empenho da Turquia para com a Aliança Atlântica.

A defesa pública da Ucrânia na tensão com a Rússia volta, de certa forma, a realinhar Ankara com os aliados do Ocidente, depois da história recente ter sido marcada por vários episódios de tensão.

Um dos quais foi de resto provocado pela própria aproximação à Rússia, com o investimento no sistema de defesa antiaéreo russo S-400 a enfurecer os aliados da Nato, e principalmente os Estados Unidos que, por sua vez, afastaram Ankara do programa de jatos militares F-35.

Mas não se trata apenas de uma questão militar. Os Estados Unidos e os aliados da NATO têm criticado veementemente a Turquia nos últimos anos pelo que consideram ser a permanente violação dos direitos humanos no país, em especial da tentativa falhada de golpe de Estado em julho de 2016.

A posição turca em defender a Ucrânia pode assim servir agora para uma reaproximação aos aliados da NATO. Mas Ankara procura igualmente não hostilizar a Rússia, com a qual tem também muito em jogo.

A ligação russa

É uma espécie de relação amor-ódio, ou talvez a melhor imagem seja um "casamento de interesses".

Ao mesmo tempo que se opõe à Rússia em vários cenários - na Síria, na Líbia, e agora mais recentemente na Ucrânia -, a Turquia procura sempre manter pontes de cooperação. Até porque depende de Moscovo em setores estratégicos.

Um deles é o gás natural, com mais de 40% do gás consumido pela Turquia a vir da Rússia, valores que podem subir nos próximos tempos após um acordo com o gigante russo Gazprom.

Com o país a enfrentar uma crise económica e subida acentuada dos preços no setor energético, Ankara não quer certamente correr o risco de hostilizar a Rússia ao ponto de "fechar a torneira", ou comprometer os novos acordos.

Mas a realidade é mais complexa do que isso. Ao mesmo tempo que procura pontes de entendimento com Moscovo, a Turquia é bastante crítica em vários outros aspetos.

Ankara nunca reconheceu, por exemplo, a ocupação russa da Crimeia em 2014, em parte por razões históricas. A região fez parte do Império Otomano até 1783, quando foi invadida pela Rússia e comunidade Tatar, com ligações históricas aos turcos, e ter sido obrigado a deslocar-se.

As alegadas pretensões da Rússia na Ucrânia são, por isso, vistas com preocupação pelos turcos, que temem também o desestabilizar de toda a região do mar Negro.

Por isso, a Turquia procurará sempre defender o "status quo" na região, sem com isso enfurecer a Rússia ao ponto de pôr em perigo as relações entre os dois países.

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