Vacina contra a malária pode estar disponível em 2023

A malária ainda mata cerca de 400 mil pessoas por ano em África, na maioria, crianças. Em entrevista à TSF, o chefe da equipa da Universidade de Oxford que conseguiu os melhores resultados de sempre numa vacina contra a doença, pede que esta ela seja aprovada com tanta rapidez como aconteceu no caso das vacinas para a Covid-19.

No final de abril, uma equipa de cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, conseguiu, pela primeira vez, que uma vacina contra a malária atingisse os níveis de eficácia exigidos pela Organização Mundial da Saúde. Essa equipa é liderada por Adrian Hill, professor de Vacinologia e diretor do Jenner Institute, que se dedica ao estudo e criação de vacinas contra doenças infecciosas, como a malária, a tuberculose e a sida, ainda muito prevalentes nos países em desenvolvimento. Leia aqui a entrevista de Adrian Hill à TSF.

Já são muitas as vacinas testadas. O que foi feito de diferente desta vez?

Já houve ensaios clínicos a 140 vacinas, mas, até agora, nenhuma conseguiu os níveis de eficácia que a Organização Mundial da Saúde queria. São 75% portanto, quando vimos que esta nova vacina tem uma eficiência de 77%, ficámos muito entusiasmados. Especialmente, porque ela foi testada na população que mais queremos proteger contra a malária - as crianças africanas. Foi numa área em que a transmissão da malária é muito, muito elevada, e, quanto maior é o contágio, mais difícil é conseguir que as vacinas funcionem. Portanto, sim, este resultado recente deixou-nos muito entusiasmados.

É a primeira vez que se consegue esse resultado. O que é que o tornou possível?

A diferença não está no antigénio do parasita da malária. Esse antigénio já foi testado antes. Tal como a proteína "spike" do coronavírus, este é o antigénio favorito da malária. Sempre que vacinámos pessoas assim antes, a eficácia foi baixa ou moderada. O que conseguimos fazer foi garantir uma resposta imunitária mais forte contra esse antigénio. É duas vezes melhor do que tudo o que foi feito antes. Conseguimos isso ao utilizar a vacina numa partícula semelhante a um vírus, sendo que, na superfície dessa partícula, existia quase só malária. Isso nunca foi tentado antes e envolve alguma engenharia molecular muito complexa.

A malária ainda é uma doença muito grave nos países africanos, mas não noutras partes do mundo, como a Europa ou a América. Porque é que o progresso tem sido tão lento?

Bem... Primeiro, é muito difícil fazer vacinas contra parasitas. A maioria das que temos são contra vírus ou bactérias. Na realidade, nenhum país do mundo licenciou ainda qualquer vacina contra doenças humanas causadas por parasitas. Depois, os parasitas são maiores, têm milhares de antigénios - a malária tem mais de 5 mil, é preciso escolher o antigénio certo. Muitos destes parasitas anulam o sistema imunitário, portanto, é ainda mais difícil garantir fortes respostas imunitárias. E alguns deles são tão inteligentes que mudam permanentemente os respetivos códigos de superfície. Logo, quando conseguimos imunidade contra um desses códigos, os parasitas mudam para outro. Portanto, o parasita da malária desenvolveu muitos truques ao longo de muitos milhões de anos. Tornou-se muito diverso, com muitíssimas variantes, e pronto para escapar ao nosso sistema imunitário.

É muito mais diverso do que o vírus da Covid-19, por exemplo...

O vírus da Covid-19 só começou a evoluir nos humanos há menos de 15 meses... o parasita da malária faz isso há milhões de anos! Por isso, acumulou variantes e tornou-se muito diverso, o que o torna muito difícil de combater, seja lá com que antigénio tentemos usar numa vacina.

Esta vacina em que está a trabalhar precisa de temperaturas muito baixas ou podemos guardá-la num congelador normal? Ou é muito cedo para dizer?

Não, não! A resposta é conhecida. Não precisa de congelador. Basta um frigorífico a 4 graus de temperatura, o mesmo que acontece com a vasta maioria das vacinas que são distribuídas em África todos os dias. E... igualmente importante... o custo de produção desta vacina, em muito larga escala, é baixo. Isto significa poucos dólares por dose, dependendo da escala: Além disso, verdadeiramente importante é que poderemos produzir centenas de milhões de doses por ano. E é disso que vamos precisar para controlar a malária em áfrica e salvar as vidas de centenas de milhões de crianças africanas. Uma vacina nova, em conjunto com as medidas já em vigor, como as redes mosquiteiras, os sprays, e alguns medicamentos para crianças durante a época em que a transmissão atinge o pico, é importante para melhores as condições delas para sobreviverem à malária.

No caso das vacinas da Covid, temos assistido a graves problemas de produção e acesso. Acredita que isso não vai repetir-se, no caso da vacina da malária?

Absolutamente! Na realidade, esses grupos terão prioridade. Há quem esteja a tentar produzir vacinas destinadas, sobretudo, a viajantes. Não é essa a nossa prioridade. Seria fácil, mas é mais importante travar as mortes de crianças, o mais depressa possível, porque são muitas centenas de milhares, esses casos, enquanto, entre os viajantes para países onde existe malária, o número de mortes é muito menor. E claro que essas pessoas que viajam, podem tomar medicamentos que evitem que contraiam malária. Portanto, Desenhámos isto para ser, não apenas acessível, mas também para ser fabricado pelo maior fornecedor de vacinas a áfrica - o Instituto Serum da Índia, com sede em Pune. Portanto, eles estão bem conscientes dos constrangimentos relacionados com os custos e dos desafios para tornar as vacinas acessíveis nesse continente. Logo, vamos conseguir fazer as vacinas chegarem às crianças em áfrica.

Quando é que espera que a vacina possa ser utilizada de forma massiva? Há um horizonte temporal?

O ensaio que vamos começar este mês envolve quase 5 mil crianças. Esperamos ter os primeiros resultados, no máximo, daqui a 18 meses. O objetivo é falar com os reguladores nessa altura. Portanto, tenho esperança que, dentro de dois anos, saberemos se a vacina vai estar disponível muito, muito rapidamente, ou se será necessário mais tempo. Portanto, a melhor das hipóteses será 2023, daqui a um par de anos.

Receia que as autorizações necessárias demorem muito?

Bom... só uma vez é que uma vacina entrou na terceira fase dos ensaios clínicos. Esse caso começou a ser avaliado em 2009 e a decisão só chegou em 2015 - são 6 anos. Na nossa opinião, isso é demasiado tempo. Lembremo-nos do caso da Covid. É claro que tem impacto em África, mas, no ano, passado matou um quarto das pessoas que foram vítimas da malária. No entanto, também em África, as vacinas da Covid receberam autorização para uso de emergência, à semelhança do que aconteceu em muitos outros países. Portanto, o que pedimos aos reguladores é: porque não acelerar procedimentos, da mesma forma, na autorização de uma vacina contra a malária em áfrica, uma vez que mata muito mais do que a Covid? Espero que compreendam que é preciso resolver isto de forma expedita. Mas saberemos ao longo dos próximos dois anos.

Sente que esse apelo está a ser ouvido?

Sim, estou bastante confiante. Temos tido várias interações positivas com os reguladores na Europa e em África. O Fórum Regulador das Vacinas em África foi muito útil na aprovação dos testes que começámos agora com 5 mil crianças. Portanto, por agora, estou otimista.

Tratando-se de África, diria que esta também é uma questão política?

Quer dizer... sempre que há um desafio sanitário global importante, há uma dimensão política, claro. Mas esperamos apoio político para sublinhar a importância da malária. Temos feito grandes progressos no controlo da doença nos últimos 20 anos. Em 2000 havia um milhão de mortes por ano devido à malária. Em 2019, foram 400 mil.... o mesmo número de 2015. Portanto, nos últimos anos, houve um travão nos esforços para empurrar esses números para baixo. Provavelmente, isso quer dizer que as ferramentas de que dispomos (as redes mosquiteiras, os inseticidas, etc) estão a ser usadas como devem ser, mas precisamos de uma nova. Por isso é que há tanto interesse na vacina da malária.

Quantas vidas diria que esta vacina pode salvar? Há uma previsão?

Sejamos claros: há várias vacinas em desenvolvimento e que podem aparecer, até mesmo na nossa universidade de Oxford. Portanto, Acredito que, no prazo de 5 anos, teremos uma vacina ainda melhor do que aquela de que falamos hoje. Uma nova combinação vai permitir um nível de eficácia ainda maior do que estes 77 por cento. E, nessa altura, podemos perguntar com seriedade, se podemos mesmo livrar-nos da malária? Podemos eliminá-la? Podemos erradicá-la deste mundo? Acredito que sim, a médio prazo. Não em 5 anos, mas com certeza nos próximos 20. Há cerca de 24 países a tentar acabar com a doença até 2025, mesmo sem vacina. Mas há enormes diferenças entre os países, na forma como é feita a transmissão da malária. Em África, no "coração" da malária, onde os mosquitos vivem felizes, crescem, multiplicam-se e transmitem a malária, é muito, muito mais difícil do que, por exemplo no Sri Lanka, um país que já erradicou a doença. Então, há alguns países onde isso é relativamente fácil de fazer - na Itália, por exemplo; e há outros, como a República Democrática do Congo, onde é muito mais complicado. Mas acredito que sim, podemos fazê-lo!

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de