Vendedor de vacina diz que Governo do Brasil tentou suborno em troca de contrato

O diretor de Logística do Ministério da Saúde terá afirmado existir "um grupo que só trabalhava dentro do Ministério" da Saúde e que ao valor da vacina, na proposta apresentada pela empresa, tinha de "acrescentar um dólar por cada dose".

O jornal Folha de S. Paulo noticiou, na terça-feira, que um representante de uma empresa vendedora de vacinas afirmou ter sido alvo de uma tentativa de suborno em troca de um contrato com o Governo brasileiro.

De acordo com o jornal brasileiro, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, que se apresentou como representante da empresa Davati Medical Supply, indicou que o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, pediu um suborno de um dólar (0,84 cêntimos de euros) por cada dose da vacina.

O encontro entre os dois homens ocorreu a 25 de fevereiro, num jantar num restaurante no Brasília Shopping, na zona central do Distrito Federal brasileiro.

A empresa Davati Medical Supply procurou o Ministério da Saúde brasileiro para negociar 400 milhões de doses da vacina contra a Covid-19 da Astrazeneca, ao preço de 3,5 dólares (2,94 euros) por dose.

Ao jornal, Dominguetti Ferreira contou que Roberto Dias afirmou existir "um grupo que só trabalhava dentro do Ministério" da Saúde e que ao valor da vacina, na proposta apresentada pela empresa, tinha de "acrescentar um dólar por cada dose".

"Ele [Roberto Dias] disse-me: 'Pensa direitinho, se você quiser vender vacina no Ministério tem que ser dessa forma'", acrescentou o representante da Davati.

Além de Dominguetti Ferreira e de Roberto Dias, estavam presentes mais duas pessoas no encontro: "um militar do Exército e um empresário lá de Brasília", disse Ferreira, indicando existirem provas do encontro, como "a telemetria" do seu telemóvel ou as câmaras de vigilância do restaurante.

O representante da empresa Davati salientou ao jornal ter recusado o pedido de suborno feito pelo diretor de Logística, acrescentando que, a partir daí, o Ministério da Saúde não quis avançar com o negócio.

"Era surreal o que estava a acontecer. (...) Eu estive no Ministério, com Élcio [Franco, ex-secretário-executivo do Ministério], com o Roberto, ofertando uma oferta legítima de vacinas. Não comprou porque não quis. Eles validaram que a vacina estava disponível", frisou.

"Tentámos por outras vias, tentámos conversar com o Élcio Franco, explicámos para ele a situação também, não adiantou nada. Ninguém queria a vacina", disse.

Dominguetti Pereira declarou não saber quem integra o "grupo que operava dentro do Ministério", e sublinhou "que se não agradasse a esse grupo, não se conseguia vender" vacinas.

Segundo o jornal, Dias foi indicado para o cargo pelo líder do Governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros, acusado de envolvimento num suposto esquema de corrupção na compra da Covaxin, a vacina indiana contra a Covid-19.

O Governo de Jair Bolsonaro encontra-se sob grande pressão desde a semana passada, após o deputado federal Luis Miranda e o irmão Luis Ricardo Miranda, funcionário do Ministério da Saúde, terem divulgado que alertaram o Presidente do Brasil para alegadas irregularidades no contrato da Covaxin.

Luis Ricardo Miranda disse ter sofrido "pressões incomuns" para finalizar os trâmites de compra da vacina, mesmo tendo identificado falhas no processo, como falta de documentos.

Entre outros pontos suspeitos, na negociação ficou acertado que uma empresa, com sede em Singapura, devia receber parte do pagamento, mesmo não estando no contrato. O Ministério Público está a investigar o caso.

As supostas irregularidades no contrato de compra da Covaxin têm estado em foco, desde a semana passada, na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que está a investigar alegadas falhas do Governo na gestão da pandemia.

Instalada em 27 de abril, a CPI da Pandemia já ouviu ministros e ex-ministros do atual Governo, especialistas em Saúde, entre outros, e abordou a demora na aquisição de vacinas contra a Covid-19, a defesa de medicamentos sem eficácia contra a doença ou a crise de oxigénio no Amazonas, que levou à morte de dezenas de pacientes por asfixia.

O Brasil, um dos países mais afetados pela Covid-19, contabilizou 515.985 mortes e mais de 18,5 milhões de casos, desde o início da pandemia.

A pandemia de Covid-19 provocou, pelo menos, 3.925.816 mortos no mundo, resultantes de mais de 181 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Em Portugal, morreram 17.068 pessoas e foram confirmados 865.806 casos de infeção, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

A doença respiratória é provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, detetado no final de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

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