Vitória insuficiente de Sánchez numa Espanha em constante bloqueio

Sánchez segura a vitória numas eleições onde a extrema-direita se posiciona como terceira força política. Nem a esquerda nem a direita têm números suficientes para governar.

Pedro Sánchez conseguiu segurar a vitória mas a repetição de eleições fez a esquerda perder sete deputados, catapultou a extrema-direita para o terceiro lugar de forças políticas no Congresso espanhol e manteve o bloqueio político.

Na hora de avaliar os resultados, o líder do PSOE preferiu reforçar a ideia de que os socialistas alcançaram a terceira vitória nas urnas deixando de lado os números que revelam a perda de três deputados. "Desta vez, sim ou sim, Espanha vai ter um Governo progressista", disse, antes de apelar "à responsabilidade de todos os partidos para desbloquearem o país".

O ambiente na sede do PSOE esteve longe de ser de euforia. A perda de deputados, a subida da extrema-direita e, sobretudo, a persistência de um bloqueio político faziam com que os semblantes fossem mais de resignação do que de alegria. "Por um lado estou contente porque o PSOE ganhou, mas por outro estou muito preocupado com a subida da extrema-direita. Vamos ver o que aí vem", contava à TSF Iván, um votante do PSOE, enquanto esperava que Sánchez fizesse a sua declaração.

Na hora de ouvir o líder socialista, os militantes enviaram-lhe um recado: "Com Iglesias sim, com Casado não". Sánchez ouviu, mostrou algum desconforto, e anunciou que ia abrir o diálogo com todas as forças políticas "menos as que se autoexcluem da convivência e que semeiam o discurso de ódio", numa clara referência ao Vox.

A vitória da extrema-direita

O partido de extrema-direita festejava o resultado na outra ponta da cidade, apresentando-se como a "alternativa patriótica" e com gritos de "vamos a eles!". Se houve um vencedor estas eleições, esse foi o Vox, com uma subida de mais do dobro dos deputados: dos 24 conseguidos em abril passa agora para 52 deputados.

A extrema-direita consolida-se em Espanha e muito à custa dos votos dos eleitores do Ciudadanos, que vê os seus 57 deputados transformarem-se em 10. Se nos dias anteriores às eleições, analistas e jornalistas tentavam descobrir quem iriam culpar os eleitores do bloqueio político, a resposta este domingo foi contundente: nem PSOE, nem Podemos - os eleitores culpam o Ciudadanos.

Rivera pagou caro a sua intransigência. Em abril poderia ter somado maioria absoluta com Sánchez, mas sempre se negou a contribuir para a investidura do socialista. A decisão custou-lhe o abandono de alguns membros do seu partido e agora vê-se relegado para sexta força política, superado até pelo Esquerda Republicana, partido independentista catalão.

No entanto, Rivera não se demitiu. Admitiu "os maus resultados, sem desculpas e sem panos quentes" e anunciou a convocatória de um Congresso extraordinário do partido mas, para já, nada de demissão.

Sem solução à vista

As contas para Sánchez estão agora mais complicadas do que em abril. Se decidir formar um governo à esquerda, precisará não só do Podemos mas também do Mais País, o Esquerda Republicana e o Partido Nacionalista Basco. Uma coligação a cinco de difícil gestão.

A outra opção é pedir a abstenção do Partido Popular. Os resultados do PP tiveram um sabor agridoce, uma subida de 22 deputado que ficou, no entanto, muito aquém dos 100 que Pablo Casado garantia esta última semana. O líder popular disse "que a bola agora está do lado de Sánchez" e que terá de ser ele a dar o primeiro passo. Nos últimos dias, os populares tinham insinuado a possibilidade de pedir a cabeça de Sánchez em troca de uma abstenção, mas estes resultados dificultam esse cenário.

Resta saber se Sánchez e Iglesias ainda são capazes de negociar. O líder do Podemos, que perdeu sete deputados, voltou a pedir um governo de coligação com ministérios em proporção ao resultado. "Acho que se dorme bastante pior com 50 deputados da extrema-direita no Congresso do que com ministros do Podemos", disse Iglesias, referindo-se à frase de Sánchez que declarou que não poderia dormir descansado com o Podemos no Governo.

Com este cenário, desbloquear a situação política espanhola não se prevê tarefa fácil. As contas são mais difíceis de fazer, as maiorias mais difíceis de conseguir e a presença exacerbada da extrema-direita vem complicar ainda mais a já de si complicada relação entre os partidos no Congresso.

Sánchez iniciará a ronda de contactos nos próximos dias. Depois saber-se-á se Espanha tem solução ou se na primavera os espanhóis estarão a votar outra vez.

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