"Vou sentir falta do drama e de ser o vilão." Farage diz adeus ao Parlamento Europeu

Na última sessão plenária, Nigel Farage avisa que o Brexit é apenas o início de uma profunda transformação na Europa. Dinamarca, Polónia e Itália, podem ser os próximos.

"Senhoras e senhores, o homem do momento: Mr. Nigel Farage." A apresentação, mais própria de um espetáculo circense do que de uma conferencia de imprensa, não deixa de ser uma boa metáfora sobre um dos principais responsáveis pelo Brexit e sobre a forma como encara a política: um espetáculo permanente. Foi esse lado teatral, admite agora, que o ajudou a devolver ao Reino Unido a independência face à União Europeia. E, afinal, se Farage não tivesse entrado no Parlamento Europeu há 21 anos, "provavelmente nada disto teria acontecido", admite.

"Lembro-me de nós três, do UKIP, chegarmos a Bruxelas, entrarmos num táxi e pedirmos para nos levarem ao Parlamento Europeu." O dia é histórico porque o Parlamento vai votar a saída do Reino Unido, mas Nigel Farage faz questão que seja também sobre ele.

A conferência de imprensa, muito concorrida, começa com um exercício nostálgico de memória. "Quando aqui chegámos, dissemos ao segurança: "Somos eurodeputados britânicos e viemos para assumir o nosso lugar"", prossegue Farage, que nunca se esquece do velho truque para manter a plateia atenta, e acrescenta sempre uma piada no fim. "Ele deve ter pensado que tínhamos acabado de sair de um asilo."

Para o bem e para o mal, Farage criou impacto no Parlamento Europeu. Agora que se despede da instituição que combateu por dentro, admite que vai sentir saudades "do drama" e do papel de "vilão" que ainda ostenta com orgulho, mas a felicidade pela concretização do Brexit é maior. "É provavelmente a coisa mais importante desde que Henrique VIII nos tirou da Igreja de Roma", sublinha, até porque, o ainda eurodeputado considera que o Reino Unido não está apenas a celebrar "a saída da União Europeia", mas também "o facto de a democracia e a vontade das pessoas terem triunfado".

Brexit, o início de uma total reconfiguração da Europa

O homem que confessa, ao longo dos anos, ter-se sentido várias vezes "uma espécie de santo das causas perdidas" não dá a sua missão por terminada. Agora que o o Brexit está "done", Farage olha para este momento, não como o fim de alguma coisa, mas como o início de uma "profunda reconfiguração da forma como a Europa está organizada".

O político britânico avisa que o que está a acontecer "é uma batalha histórica" e não enjeita que outros Estados-membros possam seguir o exemplo do Reino Unido e sair da União Europeia. Quais? "Se eu soubesse não estava aqui a falar com vocês", atira, por entre uma sonora gargalhada. Mas logo a seguir arrisca palpites: "Dinamarca, Polónia ou a Itália". "Acho que nos próximos anos este debate vai chegar a outros países", vaticina Farage, desafiando os membros da UE a questionarem-se sobre "que tipo de Europa" querem: "uma Europa governada pela Comissão Europeia ou por estados soberanos?".

"Boris Johnson era um cético"

Se Farage começou esta "guerra", acabou por ser Boris Johnson a vencê-la. Ele que, nas palavras de Nigel, "era um cético" e que acabou por só se juntar à campanha do Brexit "cinco minutos antes da meia-noite". Águas passadas, que, claramente, ainda mexem com o ego de Farage. O eurodeputado britânico deixa vários recados ao primeiro-ministro inglês e faz questão de o lembrar de que "muita da sua base eleitoral" nas últimas eleições "são eleitores que não acreditavam que os conservadores conseguissem levar o Brexit até ao fim". É por isso, lembra Nigel Farage, que "se Boris deixar de cumprir as promessas que fez, a sua base de apoio vai cair". "Ele pode já ter quebrado várias promessas ao longo da sua vida, algumas até pessoais, mas não pode quebrar esta e eu vou estar lá para o lembrar."

Até porque ainda há muito para negociar, ou, nas palavras de Farage, "há ainda batalhas terríveis pela frente". Nas pescas, na justiça, no comércio, tudo o que Reino Unido e União Europeia ainda têm para discutir até ao final do ano, no prazo imposto por Boris Johnson.

Farage admite que, do lado europeu, está um negociador temível - "o senhor Barnier é muito bom no que faz", reconhece -, mas o político britânico sugere que os britânicos façam uma pergunta muito simples à equipa negocial da UE: "Qual é o preço da liberdade?".

Nigel garante que vai ficar atento às negociações e que não vai sair do campo de batalha" para garantir que o Brexit se cumpre mesmo. Um referendo sobre o acordo? "Só depois do primeiro referendo ser totalmente implementado", afirma.

Com a conferência de imprensa a chegar ao fim, o assessor de Farage faz questão de alertar os jornalistas para o momento histórico em que, esta quarta-feira, depois das 20h00, o político britânico sai pela última vez do Parlamento Europeu, não vá algum jornalista perder essa imagem. Farage garante que vai andar por aí entre o Reino Unido e os Estados Unidos, a falar, a dar palestras, a escrever ou a fazer vídeos.

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