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Domingos de Andrade
Domingos de Andrade

Pensar no futuro

Se estava criado um ambiente de pressão sobre o Conselho de Ministros de hoje, que vai decidir se o plano de desconfinamento se mantém e com que contornos, o presidente da República serviu de amparo.

Mesmo que a dramatização sobre o risco de dentro de duas semanas passarmos a taxa de incidência dos 120 casos por 100 mil habitantes, o alarme com os 22 concelhos acima desse limite ou o ruído imenso em torno das infeções nas escolas o tentassem a ser mais conservador.

É natural que os especialistas defendam posições cautelosas, colocando sempre a vertente sanitária acima de tudo. Mas a saúde é apenas uma parcela desta equação. E a perspetiva global é muito mais complexa. É económica, é social, é de saúde mental, é de valorização da educação, é de um conjunto de prioridades que disputam terreno entre si.

Foi esse discurso de valorização da capacidade dos portugueses de responder ao confinamento, mas essencialmente sobre a urgência que se coloca ao Governo na reconstrução do país, que Marcelo acentuou. Sublinhando sobretudo que se a economia demorará a dar passos, muito mais demorará a recuperação de uma sociedade desestruturada e sem esperança.

Vamos ser objetivos: a situação está controlada como há muitos meses não estava. Estamos dentro de todos os indicadores que até há pouco eram tidos como relevantes - taxa de incidência, positividade dos testes, capacidade de resposta dos cuidados de saúde. É certo que o primeiro-ministro António Costa apresentou uma matriz ambiciosa e agora está politicamente amarrado a ela, mas não se vislumbram motivos sérios para alarme. Até porque finalmente há testes massivos em escolas, há autotestes e muitos positivos resultam destas medidas há tanto reclamadas.

O travão deve estar sempre à mão, como o presidente da República quis deixar subentendido? Sem dúvida. Mas é preciso que o perigo esteja realmente à vista. Não apenas em perspetiva. Se cedermos excessivamente ao ruído e continuarmos a achar que fechar atividades e manter pessoas fechadas é a solução, o país morrerá em casa. Da cura e não da doença. É altura de pensar mais no futuro.

Inês Cardoso
Inês Cardoso

Desemprego e pandemia. Uma bola de neve

Já havia ligações estabelecidas entre condições socioeconómicas e risco de contrair Covid-19, nomeadamente por fatores como o uso de transportes públicos e fragilidades na habitação, mas um estudo apresentado pela Escola Nacional de Saúde Pública estabelece, pela primeira vez, uma relação causal entre desemprego e incidência da pandemia. Os municípios com mais desemprego, maioritariamente na região norte litoral, são os mais afetados pela doença.

Miguel Poiares Maduro
Miguel Poiares Maduro

O Direito contra o Direito

Comecemos por recordar o óbvio. O processo Marquês expôs um conjunto de factos que revelam comportamentos profundamente reprováveis, ética e politicamente, independentemente do juízo criminal que os tribunais venham, em última instância, a fazer. Esses comportamentos exigem censura social, independentemente de qualquer censura jurídica. E também exigem uma reflexão profunda sobre a cultura política que os permitiu. Ainda há poucas semanas falava aos ouvintes da TSF sobre alguns dos problemas dessa cultura política. Este processo comprova-os. A discussão jurídica não nos deve fazer esquecer de que essa é a principal discussão que temos de ter. Mas é verdade que o processo também traz interrogações e dúvidas sobre o nosso sistema de justiça.

Rosália Amorim
Rosália Amorim

Abalo na justiça e na política portuguesa

A Operação Marquês fará história na justiça e na política em Portugal. E não é apenas pela lentidão do processo, que durou cerca de sete anos. Mas fará história também porque, pela primeira vez, um juiz afirmou que há um primeiro-ministro em Portugal que foi alvo de corrupção passiva ou, por outras palavras, foi corrompido. E o juiz usou até a expressão "compra de personalidade" - e fez questão de o dizer publicamente, mesmo sabendo que o crime de corrupção já tinha prescrito. Por isto mesmo, este caso de justiça fará história.

Raquel Vaz Pinto
Raquel Vaz Pinto

A relação EUA-Irão: recomeço nuclear em Viena?

Nos últimos dias, por entre a desumanidade que nos chega de Cabo Delgado, a repressão implacável em Myanmar, as chuvas torrenciais em Timor-Leste, a pressão militar russa na Ucrânia, a intensidade do conflito na Etiópia, já para não falarmos na pandemia, passou um pouco por entre os pingos da chuva a reunião na passada terça-feira em Viena. Neste encontro onde estiveram vários actores internacionais o tema foi uma eventual reaproximação entre o Irão e os EUA e, mais concretamente, o dossier nuclear.

Inês Cardoso
Inês Cardoso

Rui Rio. Olha para o que digo e não para o que faço

Numa tentativa de jogar por antecipação, Rui Rio tem marcado terreno na escolha dos candidatos para as eleições autárquicas, com apostas fortes nalguns concelhos, com Lisboa à cabeça. A tática, contudo, vai saindo manchada por vários erros estratégicos. Depois de desacertos na indicação de candidatos antes mesmo de os próprios serem contactados, Amadora e Oeiras são os mais recentes exemplos de como o presidente do PSD vai perdendo coerência entre discurso e prática. No primeiro caso, por razões ideológicas. No segundo, por mais uma vez sair completamente beliscado o discurso de rigor e grande exigência que tenta manter em torno da sua imagem.