Destaques

Anselmo Crespo
Anselmo Crespo

Novo aeroporto? Jamais

Haverá vários fatores que ajudam a explicar o atraso do país em termos económicos e sociais. Décadas de estagnação ou de crescimentos medíocres, salários miseráveis, serviços públicos que não respondem às mais básicas necessidades das populações. Enfim, a lista dos atrasos - muitas vezes dos retrocessos - é infindável. Mas poucos fatores resumem tão bem este problema como o calculismo político. E o processo do novo aeroporto de Lisboa é um ótimo exemplo.

José Cutileiro
José Cutileiro

Direita, volver!

Bernie Sanders ganhou a primária democrática no Nevada. A seguir a referendos, primárias são a filoxera que mais cabo dá de democracias parlamentares, acenando com a falsa miragem da democracia directa. Nos Estados Unidos já tomaram conta do Partido Republicano e estão agora a roer o que resta do Partido Democrata. Como Donald Trump, Bernie Sanders é um demagogo, embora no outro extremo do espectro político e, como Trump, acredita piamente em quase tudo quanto diz embora as suas fake-news sejam muito diferentes das do inquilino actual da Casa Branca. Sanders, senador independente de Vermont, é socialista, único político americano do Senado e da Câmara dos Representantes, isto é, de todo o Congresso de Washington, a anunciar-se como tal. Muito boa gente americana, envangélica ou não, pensa do socialismo o que, no século XIX, o socialista francês não marxista Proudhon pensava da propriedade: que é roubo. Mas muita juventude vai com Sanders (desconfio de quem, com menos de trinta anos, não seja socialista e de quem, com mais de trinta, o seja, disse Bernard Shaw) e tal adesão que, há quatro anos, custou a eleição a Hillary Clinton - quando ela ficou sozinha em liça como candidata democrata, essa juventude absteve-se - poderá bem este ano garantir a eleição de Trump, quer Sanders seja ou não o candidato democrata.

Mais Opinião

Paulo Baldaia
Paulo Baldaia

É urgente uma reforma da Justiça

No Ministério Público, que não aceita uma maioria de não magistrados no Conselho Superior, ninguém se entende e a hierarquia parece começar e acabar no sindicato. A substituição da procuradora-geral correu mal e o processo político que levou ao afastamento de Joana Marques Vidal deixou Lucília Gago sob suspeita. Na investigação faltam meios e faltam pessoas. Há juízes que estão sob suspeita por aldrabar a justiça e funcionários acusados por violarem o Citius. Quando se trata de julgar poderosos, há mais condenações nos jornais do que nos tribunais. Podemos continuar a fazer de conta que, ainda assim, a justiça se recomenda, mas todos sabemos que só por interesses político-partidários é que não se faz a necessária reforma da justiça.

Fora de horas
José Cutileiro

Fora de horas

Desta vez vim para Lisboa no Miguel Torga e, como na última ida e volta viera no Alexandre O"Neill e me fora embora no Aquilino Ribeiro, achei que a TAP tinha arranjo com a Biblioteca Nacional - já há várias décadas saída do Chiado e posta perto do aeroporto - para celebrar a literatura portuguesa mas o regresso a Bruxelas fez-me perceber que o arranjo, largo e fundo, alcançava muito mais do que as belas letras. Quem nos devolveu à cidade onde vivemos agora e onde vive o Rei dos belgas (não há Rei da Bélgica porque, na realidade, não há Bélgica: há valões e flamengos às turras uns com os outros e uma pitada de alemães, literalmente encostados à mãe-pátria para o que der e vier) foi o Eusébio, santa pessoa com muito melhor feitio que algum dos três escribas lembrados acima e, no seu ofício ou arte, pelo menos tão bom quanto qualquer deles na sua. (Conheci-os quase todos; escapou-me o otorrino de Coimbra).

Inês Cardoso
Inês Cardoso

Demência. Números que assustam e desafiam

Primeiro, as boas notícias. Na última década, a prevalência da demência diminuiu e estima-se que haja menos cerca de um milhão de pessoas afetadas em relação às estimativas anteriores. Os dados do relatório Alzheimer Europe, divulgado ontem e resultante de uma análise colaborativa dos estudos de prevalência mais recentes, sugerem que estilos de vida mais saudáveis, melhor educação e mais controlo dos fatores de risco cardiovasculares terão contribuído para reduzir o número de casos. Nesse sentido, dão esperança e mostram que nem tudo é inevitabilidade num campo em que ainda temos mais dúvidas do que conhecimento.

Rodrigo Tavares
Rodrigo Tavares

O meu filho herdará um país pior que o meu

As notícias do coronavírus na China são recebidas com mais alarmismo do que qualquer alerta sobre os efeitos das alterações climáticas. Enquanto o vírus mata milhares, o aumento de 1,5º C da temperatura média da Terra, causada pela crise climática, pode matar dezenas de milhões de pessoas. Mas a sociedade continua apática diante do problema. Um zumbido, isolado, pode ser aterrorizador, mas um zumbido, se acompanhado por muitos outros, pode tornar-se uma banalidade. E o debate internacional sobre o meio ambiente tornou-se uma banalidade, na qual participam estadistas, cientistas e adolescentes, sincronizados com a necessidade de se fazer alguma coisa, mas sem que se faça, realmente, nada de verdadeiramente decisivo. São poucos aqueles em todo o mundo, com exceção da comunidade científica e dos seguidores da Greta, que têm sentido de calamidade e de urgência. Em Portugal não é diferente. O cano da pistola está a morder a testa, mas os portugueses ainda não fitam as alterações climáticas como uma ameaça à sua existência.

Inês Cardoso
Inês Cardoso

Uma diretiva, muitas interrogações

Lucília Gago conduziu de forma desastrosa a polémica em torno da diretiva sobre os poderes das chefias do Ministério Público. Desde logo, na forma como a divulgou sem ouvir o Conselho Superior do Ministério Público, órgão que solicitou o parecer do Conselho Consultivo que lhe dá origem. E, no aparente recuo, evitando mais uma vez a discussão que se avizinhava na reunião daquele órgão, numa altura em que estava também anunciada a tentativa de impugnação por parte do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público.

Anselmo Crespo
Anselmo Crespo

Antes de reformar o País, o PSD tem de se reformar a si próprio

Quem quiser compreender melhor porque é que as pessoas estão cada vez mais afastadas dos partidos políticos ditos tradicionais, é vir a um congresso partidário. Não é assistir pela televisão, não é acompanhar pela rádio, nem ler as notícias que vão sendo publicadas pela imprensa e que dão apenas o "sumo" de uma reunião que, de magna, tem cada vez menos. É ser a "mosca" na sala onde estão reunidos os delegados e perceber o que os move. Como se movem.