A adesão da Ucrânia à EU: a grande ilusão

O processo de adesão da Ucrânia à União Europeia foi o tema da crónica semanal de Daniel Oliveira na TSF, começando por referir que "não foi por acaso que Macron, Scholz e Draghi puseram as suas reservas" à candidatura do país "no bolso" durante as suas visitas a Kiev.

"Ninguém quer dizer perante as câmaras, quando visitam um país invadido e destruído por uma potência sem escrúpulos, que a sua rápida adesão não depende só de boa vontade, mas qualquer pessoa com bom senso e em boa-fé acompanha as reservas apresentadas por António Costa", após o primeiro-ministro português defender que a entrada da Ucrânia não deve ser prioritária, considera o cronista.

Para aderir à União Europeia, "esperar uma década é a norma e não a exceção" e a entrada da Ucrânia, "é mais complicada que qualquer outra adesão até hoje". Com uma maior rapidez na decisão, "teria de passar à frente do Montenegro, que espera há 12 anos, à Sérvia, que se candidatou em 2014 e nunca entraria antes de 2030, da Turquia, que está no limbo desde 2005 e da Albânia, Macedónia, Moldávia e Geórgia, que se candidatam no mesmo momento", enumera.

"A promessa de uma adesão rápida é uma mentira", acredita Daniel Oliveira, recordando "as promessas não cumpridas com a Turquia e os países dos Balcãs", que geraram "ressentimento, falta de confiança e afastamento crescente em relação à Europa" em vários estados, temendo que o mesmo possa acontecer com a Ucrânia.

"Neste momento, a Ucrânia não preenche nenhum requisito para entrar na União Europeia e, muito menos, por uma via rápida", refere, porque "existe a possibilidade de continuar com partes do seu território ocupadas por uma potência nuclear" e, porque "não sabemos o grau de devastação económica e das infraestruturas e, mesmo contando com o apoio da UE, a sua reconstrução tinha de ser prévia à adesão".

Mesmo antes da invasão russa ao território ucraniano, Daniel Oliveira admite que o país "estava a léguas dos requisitos mínimos para aderir, porque a sua corrupção tem uma dimensão desconhecida em qualquer país europeu que lida com problemas semelhantes". "A economia do país baseia-se numa rede de oligarcas com mais semelhanças com o que se passa na Rússia do que na Europa".

"A experiência mostra que não é depois da adesão" que os problemas se resolvem, como foi o caso da Roménia e da Bulgária. "Apesar da visão romântica sobre a política ucraniana, compreensível quando estamos perante um país invadido, ela nunca foi uma democracia de estilo europeu", opina o jornalista.

A Ucrânia viveu, desde a sua independência, em 1991, na opinião de Daniel Oliveira, "uma permanente instabilidade, cheia de golpes e contragolpes, com a ilegalização frequente e expedita de partidos, prisões de opositores e o encerramento de órgãos de comunicação social", problemas que a adesão não resolveria, "não o foi com a Polónia e com a Hungria", considera.

"Imaginem o estado em que estará a política ucraniana depois da guerra, com quase todo o país armado e a extrema-direita galvanizada pela importância que teve na resistência", insiste o cronista, porque "com o peso demográfico da Ucrânia, esta brutal fragilidade seria transferida para as instituições europeias, que têm sido incapazes de resolver situações muito menos complicadas, como a da Hungria".

O que resta à Ucrânia, na opinião de Daniel Oliveira, "é a sua capacidade agrícola sem paralelo na União Europeia", que se pode virar contra os ucranianos, porque "a entrada no mercado comum de um país que exporta 20 mil milhões de euros em produtos agrícolas, que teria direito a milhares de milhões em subsídios, levanta imensos problemas".

"Mesmo que o eixo franco-alemão fosse subitamente tomado por uma solidariedade que nunca o assaltou, demoraria anos a renegociar toda a estrutura da Política Agrícola Comum um dos temas mais sensíveis na UE, com revoltas certas na França e Alemanha", acredita.

Para Daniel Oliveira, António Costa disse "o que quase todos pensam e é falso que esteja isolado". "Nem sequer o disse por causa dos brutais impactos que esta adesão teria para os países do sul, especialmente para Portugal", mas sim porque "a adesão da Ucrânia, com gigantescos problemas que terá de resolver, e com mais de 40 milhões de cidadãos, tem um tal potencial disruptivo que poderia levar à implosão de um projeto europeu, que, desde que se criou o Euro, não consegue tratar de si mesmo".

Para o cronista, "a União Europeia deve apoiar a Ucrânia em nome da solidariedade e da estabilidade. Deve ter apoios comerciais e uma cooperação muito reforçada, participando ativamente na sua reconstrução, mas não estará tão cedo em condições de cumprir a promessa da adesão sem se entregar a um suicídio institucional".

"Nada estou a dizer que não seja evidente em Berlim, Paris ou em Roma. Este é, no entanto, o tempo da hipocrisia, e ela é tanta que assistimos à proeza de ver António Costa atacado por excesso de sinceridade", conclui.

*Texto redigido por Clara Maria Oliveira

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