A carta que eles deviam ter lido

Numa carta aberta divulgada na passada semana, o presidente da Luxembourg Sports Press ironizava ao dizer que "o COI ainda acredita em milagres". Petz Lahure perguntava: "De quem nos estamos a rir? Dos desportistas e das desportistas? Dos amantes do olimpismo ou das vítimas da pandemia?". E concluía de forma contundente: "Esqueçam o dinheiro, lembrem-se dos valores do olimpismo e assumam as vossas responsabilidades (...) Adiem os Jogos de Tóquio o mais depressa possível. O Barão de Coubertin vai agradecer-vos".

A carta é mais longa, mas o fundamental está naquelas palavras. E chega perfeitamente para ilustrar a situação. Depois disto, Thomas Bach, presidente do Comité Olímpico Internacional, que presumivelmente não a deve ter lido, passou, em três ou quatro dias, de um "não" ao adiamento até à possibilidade de "pensar" em cenários alternativos. O COI conta dizer alguma coisa daqui por quatro semanas, garantindo que o cancelamento está fora de hipótese.

Na verdade, Thomas Bach já percebeu que os Jogos de Tóquio não têm a menor hipótese de avançar nas datas previstas, ainda por cima depois do primeiro ministro japonês admitir que "o adiamento pode ser inevitável". Mas há mais e, porventura, com maior importância.

Quando os comités olímpicos da Austrália e do Canadá já avisaram que não vão enviar atletas se tudo ficar na mesma - uma forma diferente de assumir um boicote - está dado o pontapé de saída para o COI ser obrigado a arrepiar caminho. Só que, se quiserem, podem juntar os apelos dos comités da Noruega e do Brasil para que haja adiamento; de Sebastian Coe, presidente da Federação Internacional de Atletismo, que frisa que os Jogos não têm de realizar-se "a qualquer custo"; ou do diretor-executivo da federação norte-americana de atletismo (a maior potência mundial da modalidade) que fala de "uma enorme pressão, stress e ansiedade" dos atletas que, nesta altura, nem sabem bem como continuar a preparação.

Isto, só por si, chegava e sobrava para o COI acabar rapidamente com o tabu. Acresce que, nesta altura, há uma percentagem muito elevada de qualificações que ainda não estão concluídas, nem se sabe quando estarão. Logo, estes Jogos poderiam vir a ter uma participação estranhíssima, com regras distintas do apuramento tradicional.

Por outro lado, o obrigatório controlo antidoping está muito condicionado (ou inviabilizado), o que abre a porta a todo o tipo de abusos.

Finalmente, um dado lateral que pode ser desastroso. Mesmo admitindo que a Covid-19 esteja controlada no Japão em julho, faz algum sentido abrir as portas a milhares de espectadores oriundos de 210 países, estando estes em níveis muito diferentes de combate ao novo coronavírus?

É fácil perceber que o COI tem pela frente o enorme desafio de conseguir a reformulação dos calendários desportivos de 33 modalidades olímpicas para encontrar novas datas para os Jogos de Tóquio. Mas também não é menos verdade que já o devia ter começado a fazer há mais tempo. Quando a UEFA adiou o Europeu e a CONMEBOL adiou a Copa América, o COI devia logo ter seguido o exemplo.

Adiar os Jogos Olímpicos não é necessário, é imperioso. E não seria apenas o Barão de Coubertin a agradecer : a Humanidade também.

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