A Crimeia da discórdia e o futebol do Euro

Estamos quase a começar mais um Campeonato da Europa de Futebol e aproveito, desde já, para desejar que a nossa seleção consiga revalidar o título de 2016, aquele que nos soube tão bem à alma e ao orgulho.

Mas, mesmo antes do apito inicial deste Campeonato, já temos pedidos de cartões vermelhos por parte de uma das equipas, neste caso a seleção da Federação Russa, em relação a uma equipa que está noutro grupo que não o seu. E porquê? As razões podem ser resumidas a uma palavra: Crimeia. Na verdade, quando soube desta queixa de Moscovo, relembrei-me do último Campeonato do Mundo em 2018, que foi organizado justamente pela Rússia. E daquele momento em que foi apresentado o símbolo oficial pela organização com um mapa gigante no qual estava incluído o território da Crimeia. Seguiram-se as queixas evidentes e lideradas pela Ucrânia.

Mas, desta vez, as posições estão claramente invertidas e foi a Rússia que se queixou e neste caso concreto à UEFA. Mas então qual foi a razão desta queixa? A razão é simples: a seleção da Ucrânia apresentou um equipamento muito especial. Neste podemos ver o mapa do seu país muito bem delineado. E é claro que nesse mapa está incluída a Crimeia e toda a região oriental que há anos e anos tem sido vítima de uma guerra intensa e difícil. Aliás quem acompanha o futebol apercebe-se bem deste conflito e do seu impacto através da epopeia de uma equipa ucraniana, o Shakthar Donetsk, que é justamente desta região.

Mas voltando à Crimeia: a Rússia anexou este território em 2014 e a Ucrânia nada pode fazer. Esta anexação continua a ser vista como tal e, portanto, é rejeitada por uma maioria esmagadora de países a nível internacional. E Kiev tem aproveitado todas as hipóteses para que esta anexação não seja esquecida e o mesmo em relação à guerra que se mantém acesa na zona oriental do seu território.

O argumento da Rússia é o do costume: "O futebol deve manter-se fora da política." Esta é uma lógica muito usada em situações nas quais encontramos ditaduras e desporto. Em resposta o homólogo ucraniano de Vladimir Putin, Volodymyr Zelensky fez o oposto, como seria de esperar, e realçou os "símbolos importantes".

Neste campeonato há vários bons jogos em perspetiva, mas diria que pelo peso da história e da própria Europa há um que é claramente cabeça de cartaz: França - Alemanha. Aliás, duas equipas no mesmo grupo de Portugal.

Infelizmente, enquanto as atenções da Europa e dos europeus (e minhas) vão estar centradas nas suas equipas nacionais, infelizmente a guerra vai continuar no território ucraniano. E a rivalidade e a controvérsia entre Moscovo e Kiev não vão de todo amainar.

É mais um de muitos exemplos em que a política internacional nos pode ajudar a compreender o futebol e aquilo que se passa dentro e para lá dos relvados.

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