A desigualdade que mata

Os números são muitas vezes frios e distantes das pessoas, mas há em contrapartida os que fornecem retratos avassaladores do mundo e dos seus desequilíbrios. É o caso dos valores que constam do relatório da organização não-governamental Oxfam, apresentado esta terça-feira no Fórum Económico de Davos, na Suíça, e que mostram o fosso cada vez mais fundo entre os muito ricos e os que lutam diariamente pela sobrevivência.

A riqueza dos multimilionários aumentou mais nos dois anos de pandemia do que tinha acontecido em 23 anos, o que ilustra bem o efeito acelerador causado pela covid nas desigualdades. A soma das grandes fortunas mundiais triplicou quando comparada com o ano 2000 e corresponde a 13,9% do produto interno global.

Nos setores alimentar e de energia, os mais ricos estão a aumentar as suas fortunas em mais de 900 milhões de euros a cada dois dias - neste caso por efeito não apenas da pandemia, mas também da guerra na Ucrânia. No conjunto da atividade económica, foi criado um multimilionário a cada 30 horas durante os últimos dois anos. E, para cada um deles, quase um milhão de pessoas estão a ser empurradas para a pobreza extrema.

Mais absurdo ainda é olhar à lupa para o setor farmacêutico, em que a covid criou mais 40 multimilionários. Estão a lucrar 932 euros por segundo só na venda de vacinas, cobrando aos governos 24 vezes mais do que estas custariam se fossem produzidas como genérico. Valores que, adicionalmente, contribuíram para a corrida desequilibrada à aquisição de vacinas e para a exclusão de uma parte da população mundial.

Poderíamos ficar só com os números. São como um murro no estômago e dizem tudo sobre a desumanidade das assimetrias. Envergonham-nos coletivamente. Mas não basta que nos arrepiemos. É preciso que a luta por mais equidade ou, antes ainda, a luta pela sobrevivência e dignidade de tantos milhões de pessoas atingidas pela fome e pela falta de condições de salubridade e habitação, nos mobilize a todos. É urgente que exijamos ação política, porque o retrato traçado é público e cada vez mais indigno.

São evidentes e bem conhecidas dos governantes as medidas políticas ao seu dispor. A começar por alterações fiscais e maior taxação da riqueza. Ainda que em Portugal tenhamos um aceso debate sobre a carga fiscal e o facto de também na existência de grandes fortunas termos debilidades, é inequívoca a margem de intervenção, e por maioria de razão a nível internacional. Tal como não pode ser descurada a intervenção sobre as receitas excecionais nos setores beneficiados pela pandemia. Outra frente de combate é a evasão fiscal e a permissividade que globalmente mantemos em relação a offshores. Bem como a ponderação de medidas adicionais contra os monopólios e a especulação nalguns setores.

Como sublinhou Gabriela Bucher, diretora executiva da Oxfam Internacional, esta é uma desigualdade que "literalmente mata". E ninguém pode deixar de se sobressaltar com o facto de uma parte muito reduzida da população mundial estar a aumentar o seu conforto à custa de quem não tem sequer recursos para fazer uma refeição diária. Não é uma simplificação: é o retrato nu e cru da realidade, que exige mudanças profundas de paradigma.

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