A igreja portuguesa e os abusos sexuais

São as primeiras queixas de alegados abusos sexuais cometidos por elementos do clero recebidas, em Portugal, através das recentemente criadas comissões de proteção de menores e pessoas vulneráveis. A arquidiocese de Braga, umas das primeiras a criar este serviço de acompanhamento, na sequência das orientações do Papa e da Conferência Episcopal Portuguesa, divulgou as primeiras denúncias recebidas, seguindo-se dados (pouco claros) de outras dioceses.

As duas queixas de Braga não deram origem a qualquer investigação. A justificação é de que se reportam a factos ocorridos há mais de 30 anos e estarão, por isso, "jurídica e canonicamente prescritas", tanto que um dos registos visa um pároco entretanto já falecido. O coordenador da comissão, o bispo auxiliar D. Nuno Almeida, admite reabrir a investigação em relação ao sacerdote ainda vivo se surgirem novos elementos, embora sublinhe que ele não tem atualmente quaisquer funções paroquiais ou diocesanas.

Se estes primeiros casos são um sinal de que começam a surgir frutos do trabalho para facilitar a denúncia de agressões sexuais e acompanhar as vítimas, por outro mostram que o caminho é lento e pouco transparente. Junho deveria ser o mês limite para a constituição das comissões de proteção em todas as dioceses, mas seis ainda não terão concluído o processo. Em abril estava agendada uma assembleia plenária em que o tema estaria na agenda, mas a pandemia adiou o encontro.

Enquanto noutros países abalados por escândalos a questão dos abusos no meio eclesiástico foi alvo de profundas discussões, em Portugal continua a imperar o silêncio. Desde 1993, ano da primeira condenação de um sacerdote por crimes contra menores, são apenas quatro as decisões judiciais conhecidas. Num dos casos, o padre não foi impedido de continuar no sacerdócio.

A pedofilia tem sido uma das maiores sombras sobre a Igreja Católica e o Papa Francisco tentou uma autêntica revolução. As normas para a proteção de menores incluem a denúncia obrigatória. A lufada de ar fresco que procurou introduzir na Igreja, da gestão financeira a questões morais como o acolhimento de divorciados e recasados, nem sempre foi bem recebida e sentimos muitas vezes o Papa como um homem só entre alguns setores eclesiásticos.

A solidão das cerimónias pascais numa praça de São Pedro vazia, uma imagem icónica que alimentou a fé de milhões de crentes em todo o mundo, acaba por simbolizar um paradoxo. Francisco é um Papa amado entre os crentes, que promove o acolhimento e a união à distância. Mas é alvo de discordâncias e de distanciamento por parte das franjas mais conservadoras, sentindo resistências à mudança.

Num momento de profunda crise, com o agravamento da pobreza a nível mundial, renovam-se os desafios para o líder da Igreja Católica. Curiosamente, os canais oficiais de comunicação do Vaticano dão conta de inúmeras iniciativas de apoio em diferentes partes do mundo, incluindo doações de equipamento médico e a criação de um fundo para as áreas mais afetadas. Mas ​​​​​​​parece perder-se, no terreno, essa ligação direta a quem precisa de assistência. Uma ação concreta no mundo.

Muitos sacerdotes, neste período, reinventaram-se na forma de ligação às suas comunidades. É preciso que agora sejam mais presentes e dinâmicos, em populações enfraquecidas pela crise e pelo desemprego. Durante o confinamento, o Papa pediu criatividade aos católicos e que aproveitassem o isolamento para se reaproximarem de Deus. O mesmo pedido pode ser dirigido à hierarquia: uma reaproximação às origens e à simplicidade dos primeiros anos do cristianismo.

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