A inevitável internacionalização de médicos e enfermeiros

"A Opinião" de Pedro Pita Barros, na Manhã TSF.

Nas últimas semanas, houve várias notícias sobre o recrutamento de médicos portugueses por parte de entidades de saúde da Galiza e da Irlanda. Houve também várias reações de preocupação e de como pensar em reter os médicos em Portugal.

Episódios como estes vão certamente repetir-se nos próximos anos. E há pouco que se possa fazer quanto a isso.

A nível mundial há uma falta de profissionais de saúde, incluindo médicos e enfermeiros, que o ritmo de formação não será capaz de acompanhar. Mesmo na Europa, havia em 2013 uma falta de cerca de milhão e meio de profissionais de saúde. A previsão para 2030 não se altera muito, com a falta de milhão e 300 mil profissionais de saúde no espaço europeu.

Significa que os países com maior capacidade económica irão procurar recrutar noutros lados, por vezes longe (como médicos indianos para o Reino Unido, ou enfermeiros das Filipinas para a Alemanha), outras vezes perto. A mobilidade internacional de profissionais de saúde existe, e Portugal terá que saber lidar com essa realidade, quer nos médicos quer nos enfermeiros, as profissões onde por agora se faz mais sentir este apelo do exterior.

Um segundo aspeto, presente nalgumas reações, foi a ideia de contratualmente reter médicos recém-formados no Serviço Nacional de Saúde, como forma de não haver falta de médicos no serviço público.

Dificilmente esta será uma solução de longo prazo, face à pressão da falta de médicos a nível europeu.

Além disso, não existem cursos de medicina apenas para preencher lugares e necessidades do SNS. O ensino superior, de todas as profissões ligadas à saúde, serve a sociedade, em particular as novas gerações, formando-as para uma vida profissional que seja realizadora e satisfatória; o ensino superior não se destina a ser a escola de formação para emprego público.

Reduzir vagas nas escolas de medicina, como por vezes é defendido, só irá complicar mais a situação, sem trazer benefício claro para a sociedade, globalmente falando.

Não é fácil definir um caminho, mas terá que assentar na realidade. Da parte do SNS, condições remuneratórias, condições de trabalho e trajeto profissional de longo prazo terão que ser bem pensados e articulados, num ambiente pelo menos europeu. E é preciso pensar desta forma desde já, antes que as solicitações de recrutamento internacional se intensifiquem e depois se faça ar de surpresa.

Do lado da formação, do ensino superior, é preciso preparar as novas gerações de profissionais de saúde para trabalharem em Portugal ou na Europa (pelo menos), sabendo-se que alguns irão fazer a sua vida fora.

Ou se pensa a sério na "oferta" e na "procura" de profissionais de saúde reconhecendo a crescente mobilidade internacional, ou seremos negativamente surpreendidos num futuro não muito distante.

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