A liberdade não é apenas uma expressão

Immanuel Kant, nascido na Antiga Prússia (Konigsberg, agora Alemanha) não teve mundo. Isto é, não se lhe conhece nenhuma viagem ou ausência da sua terra natal para experienciar ou viver aventuras. Mesmo assim, apesar do seu recato, tornou-se num dos grandes pensadores da História da Filosofia. Reza a lenda que os seus vizinhos acertavam o relógio pelo horário rigoroso das suas caminhadas, e que, avesso a abrir janelas, muitas vezes lhe encontravam piolhos nas perucas que à época se usavam.

No entanto, Kant não só teve uma brilhante carreira académica, como a partir da sua pequena Konisberg, através da crítica, desmantelou e reformou muitos dos conceitos da Filosofia, que se modernizou graças ao seu empenho. O "Kant" pode ser sinónimo de uma grande dor de cabeça para os estudantes que, enquanto andei no secundário, nunca se cansaram de o diminuir em todas as oportunidades, mas algum respeitinho seria uma coisa bonita de ver pelo homem que definiu como raciocinamos e como agimos em sociedade. Foi também precursor da sismologia e um dos intelectuais que manifestou grande interesse pelo terramoto de 1755 e pelas suas causas naturais.

Depois de ter dedicado muito do seu pensamento ao processo gnoseológico e à aproximação entre Filosofia e Ciência, Kant interessou-se pela apreciação filosófica de conceitos como a beleza (juízo estético) ou a liberdade (juízo moral). No seu tempo, século XVIII, havia pouca consciência de coisas que para nós são agora dado adquirido, mas ao seu conceito de liberdade presidiu sempre uma noção de responsabilidade que ele considera essencial ao exercício da própria liberdade.

Hoje em dia o que nos passa da noção geral de "liberdade de expressão" é a garantia de um direito inalienável, com certeza, mas sem regras, conteúdo ou propósito. O próprio equilíbrio entre as classes trabalhadoras, como artistas ou jornalistas (que dependem de um consenso sólido acerca da liberdade de expressão) e o público está ferido por uma distância inconciliável. Quando falamos de um afastamento massivo perante a seriedade dos livros de Filosofia ou dos grandes trabalhos de investigação jornalística, temos de ter a coragem de admitir que esta é uma escolha livre, consciente, quase uma preferência, um exercício da nossa Liberdade "livre". Mas altamente irresponsável.

As fake news, que antigamente apelidávamos de rumores ou boatos, foram sendo altamente refinadas, penetrando no mundo outrora fechado da política e economia, seco que estava o sangue da vida social e dos escândalos por via da normalização que a Internet proporcionou. E as pessoas gostam delas e ajudam a espalhá-las, porque elas assim são pensadas: um fato por medida, resultante da informação, que os defensores de uma linha dura de liberdade de expressão lhe dispensam de uma forma voluntária mas acrítica e muito pouco criteriosa.

Isto para concluir que a verdade, a razão, a que já chamámos de chama viva, de garantia social, de senso comum, etc., já não ocupa lugar de destaque nas preferências de quem se manifesta. Apenas e só se tenta garantir a todo o custo, ao preço da verdade, a sacralidade da liberdade de expressão mesmo que essa liberdade declare ódio homicida a outras. É na defesa desse direito que jogamos a nossa credibilidade enquanto músicos, artistas, políticos, ou cidadãos, alheios, ou melhor, sentindo-nos completamente desresponsabilizados pelo "que aí vier". Como se não soubéssemos todos que a liberdade sem responsabilidade própria (vamos, por ora, deixar a Lei e o Estado fora desta conversa), sem filtro, nunca acabou em bem.

Acabo por deixar uma nota de que não me quis referir a nenhum caso em particular ou pessoa em concreto. Não que falte vontade ou exemplos, mas acredito fortemente num exercício de formalidade. Por acaso, ao contrário do que propôs Kant, vai sendo a hora de virarmos a atenção do sujeito para o objeto, acabando de vez com a "fulanização" dos temas que é indecorosa e mal-educada. Se conseguirmos este pacto social, que depende apenas de nós, podemos ter hipótese de tomar as opções certas quando chegar a hora de deixar de criticar e começar a fazer.

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