A linha da frente agora tem de ser maior

Passámos os últimos meses a falar na "linha da frente" e no papel insubstituível dos profissionais de saúde. Um papel de sacrifício que implicou uma exposição ao risco que levou a que milhares adoecessem, que vissem as férias suspensas, que nalguns casos optassem por se afastar voluntariamente da família para a protegerem do risco de contágio. A atividade de médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares deve continuar para além do pico da pandemia, mas agora temos, a somar à crise sanitária, uma crise económica e social que todos os dias ganha tamanho e que exige uma gigantesca linha da frente, pública, essencial para os cidadãos e empresas.

Não falo do Estado em abstrato ou das decisões do Governo, nas políticas para recuperação económica. Falo de funções públicas de apoio direto aos cidadãos e de milhares de profissionais e serviços que devem encarar com particular sentido de responsabilidade as tarefas que têm em mãos. Começando pelas autarquias, que em momentos de fragilidade têm uma ação única de proximidade, que agora deve ser particularmente proativa em gabinetes de apoio ao empresário ou serviços de ação social. Prosseguindo em repartições de finanças, em setores com responsabilidades no licenciamento de atividades e empresas, em todos os que se veem confrontados com dúvidas, pedidos e perguntas de empresários a braços com uma crise toda feita de incerteza.

Quando o setor privado levou um rombo inesperado, a resposta pública deve ser célere e eficaz. O que se estende aos tribunais e aos magistrados que, não sendo funcionários mas órgãos de soberania, defendem a todo o momento os interesses legítimos de cidadãos e empresas. Depois de três estados de emergência, com prazos processuais suspensos e uma pausa forçada a agravar a já tradicional morosidade da justiça, é difícil de compreender que não haja uma alteração, por mais mínima que seja, no calendário das férias judiciais. Não é que uma ou duas semanas de férias a menos resolvesse o problema dos atrasos, mas dava um sinal simbólico da vontade de partilhar um esforço que é nesta altura sentido de forma desigual pelos portugueses.

A escola merece uma particular atenção neste contexto. Temos ouvido o ministro da Educação explicar que se está a trabalhar em novos cenários, dado o risco de voltarmos a ter um pico de infeções e a eventual necessidade de períodos de confinamento. Poderemos voltar a ter ensino à distância, ou um sistema misto, combinando aulas presenciais com outras ferramentas.

Compreende-se que planear com várias opções sobre a mesa é o adequado a fazer quando temos a incerteza por companheira. Mas uma coisa é trabalhar em cenários. Outra desistir de procurar o mais possível soluções que ampliem as possibilidades de ensino presencial, trabalhando por exemplo em turmas mais pequenas, planos com espaços amplos em que possam ser dadas aulas, turnos desencontrados e outras estratégias para maximizar a segurança.

Esse esforço deve estender-se às universidades, em que tem sido evidente a desarticulação entre o discurso do ministro da tutela e as opções concretas das instituições de ensino. Uma escola ou uma universidade sem presença, sem discussão e sem troca de reflexões e de questões, sem a relação direta professor-aluno, é a negação dos princípios basilares da escola. Sem esquecer que as plataformas digitais acentuam as desigualdades, fragilizando os que não têm recursos ou contexto familiar que os ajude a manter o ritmo, acabando por perder o comboio. Que não haja ilusões: o ensino à distância foi o possível para este terceiro período, um momento de diferença vivido com novas aprendizagens por famílias, alunos e professores, que têm feito das tripas coração para conseguirem adaptar-se às mudanças. Mas não há, virtualmente, as potencialidades da presença.

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