A (má) criação do mundo

O baterista Grego da banda que nos acompanha nesta quase interminável digressão que percorre a maior parte deste fragmento político e social em que a Europa se tornou, dentro e fora da comunidade, confessa-me os três momentos em que sofreu de depressão clínica. Relata-me o isolamento, os comprimidos para desbloquear a serotonina, o batimento cardíaco tão rápido quanto ele na bateria. Escuso-me ao erro insensível de lhe perguntar porque ficou ele assim. A depressão não se justifica, ou, por outro lado, tem tantas razões que se torna tão difícil contá-las como às estrelas no céu numa noite em claro. Quando fecho as últimas páginas da Criação do Mundo de Miguel Torga, o autor anuncia, no remate de uma vida, que os novos dias que virão não serão dele (ou nossos). Sinto-me grato por todas estas e outras páginas que me servem de alimento e inspiração nos dias fáceis e difíceis deste deslocamento de mais dois meses numa Europa que se está a deixar matar pelos fantasmas do passado. Não consigo deixar de pensar que esta transferência das minhas agruras para as páginas dos escritores, tem sido a minha carta de "você está fora da prisão/depressão" nas voltas que tenho dado ao tabuleiro da vida. Tenho uma dívida clínica para com a literatura e se fosse psiquiatra, receitava livros em vez de medicamentos.

Gostava de poder transformar as palavras de Torga numa onda transmitida via satélite que adentrasse as mentes poluídas que em 2019 destilam o seu veneno de honra por toda a parte, o seu fel legitimado publica e socialmente por um exército de pessoas que não conhece mais nada que o desprezo pelos outros. Ora se todas estas unidades de ódio fossem agora somadas, o resultado seria muito mais do que aquela "minoria" matemática que os próprios bullies nos dizem para ignorar.

Cresci num Portugal pobre, mas com sentido de comunidade. A minha Brandoa tinha todas as cores. De vez em quando borrávamos a pintura toda, decerto, mas no fim do dia pretos, brancos e ciganos bebiam, todos juntos na tasca, o copo de três da paz, enquanto trocavam petiscos, anedotas, fluidos, vazadas de cartas, peças de dominó e cantigas.

Há pouco tempo quanto dei uma entrevista à Metal Hammer Portugal, um projeto que muito acarinho, afirmei que, nós, músicos de Heavy Metal (ou qualquer outro estilo por assim dizer), devíamos ser os primeiros a combater o racismo de cima dos palcos. O mesmo para o futebol. Levantada essa pedra, apareceram os lacraus que vivem debaixo dela e que me disseram para ir mas é dedicar-me à música (como se tocar 50 datas em 53 dias não exigisse um mínimo de dedicação) e estar calado, porque sou músico, e um "comunistazeco" por denunciar o racismo.

Reafirmo que não tenho medo algum da extrema-direita em Portugal. Das suas caras de mau, das suas tatuagens American History X, dos esteroides com que enchem as carnes, da ameaça que sempre paira no ar poluído dos seus comentários. Aconteça o que acontecer, há que dar luta e botar ácido nestas ervas daninhas antes que proliferem e dominem a paisagem. Cortar de vez o pio e o tempo de antena a "jornalistas" que não vêm "mal" em partilhar memes ordinários e rascos. A permissividade é uma lagoa de águas paradas, que devemos inundar com o grande mar salgado e purificador que é o pensamento livre e verdadeiramente democrático. Não podemos deixar-nos confundir pela demagogia, pelo populismo, pelas palavras do senhor doutor deputado que se calhar nunca leu Torga, nem lhe interessa um chavelho o sofrimento duplo de um dos nossos maiores autores não só às garras do Estado Novo mas também na chamusca do lume lento da sociedade civil que a tudo se acomoda, quando lhe deitam maldades na bebida e a violam sem pudor.

Se o mundo é uma balança, um dos pratos tem de ir para baixo. Sei bem onde meter o peso: digo que não à comparação entre a liberdade de expressão e o discurso de ódio. Um discurso livre não pode conter ódio ao próximo. Senão, não é livre. Digo que não ao humor fácil utilizando Joacine, Mamadou, Black Friday. Digo que não, que não é a mesma coisa chamar branco a um branco e preto a um preto. Se o mundo se define na escala, encontrar o fiel equilíbrio é saber carregar o prato da balança com a coragem de mandar fora o lastro racista, chauvinista e snob que caracteriza o Portugal de agora e de sempre. Se o vejo de dentro ou de fora, não interessa para o caso. Há que cerrar as portas aos espectros de outrora. O que se matou no 25 de Abril é para deixar estar morto. Há muita vida pela frente e ninguém se pode atrever a perfumar as suas ideias com o odor dos muitos cadáveres com que se construiu, para o bem e para o mal, esta casa Portuguesa, que como diz a canção popular, não é minha, não é tua, é de todos, com certeza.

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