A maior mentira da pandemia

Chegou a ser comovente a forma como encaramos o início da Covid-19, tratando o novo coronavirus como uma coisa democrática que não fazia distinções sociais, ameaçando de igual forma pobres e ricos. Ainda há quem pense assim, porque de facto, apanhados pelo vírus, as consequências seriam iguais para ricos e para pobres. E seria assim, se o vírus circulasse apenas por países com sistemas nacionais de saúde que acodem democraticamente a todos. Mas como sabemos, uma coisa é viver na Europa e outra bem diferente é viver na América Latina, em África e até mesmo nos Estados Unidos da América, onde o sistema de saúde se encarrega de distinguir ricos e pobres.

Neste país onde é suposto ter corrido tudo muito bem, aqui em Portugal, é verdade que evitámos o colapso do SNS, mas também por cá se percebeu que o vírus perdia a sua característica democrática sempre que era preciso tomar decisões. O confinamento, por exemplo, não foi para todos, obrigando muitos profissionais mal pagos, como caixas de supermercados, recolha do lixo, enfermeiros e pessoal auxiliar nos hospitais, forças de segurança, todos esses trabalhadores foram sujeito a riscos muito maiores que todos aqueles que puderam recolher-se em sua casa. Mesmo para os que ficaram em casa, não houve o mínimo de igualdade entre os que mantiveram a totalidade do seu rendimento, os que o perderam parcialmente e os que o perderam de todo.

Chegamos a este momento e percebemos que o vírus se mantém capaz de fazer adoecer pobres e ricos, mas a sociedade encarrega-se de contrariar esse espírito solidário, não fornecendo a uma enorme massa trabalhadora das periferias das grandes cidades, Lisboa à cabeça, uma rede de transportes que não os coloque em perigo. E os mais pobres dos pobres vivem em casas sem condições, muitos emigrantes a viverem amontoados em quartos, bairros inteiros colocados em perigo...

O que agora se está a passar em Portugal, com os mais pobres a serem vítimas quase em exclusivo da Covid-19, mostra que o vírus pode ser muito democrata, nós como sociedade é que deixamos muito a desejar.

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