A propósito de Zé Pedro… Rock "n" Roll e saudade

Ainda não consegui apagar o número de telefone dele do meu telemóvel. Nem as mensagens trocadas. No dia 26 de novembro dos últimos anos já não tive uma mensagem dele como sempre tinha ('Querido Amigo Ricardo, hoje é o teu dia, que seja um dia especial com um ano espetacular'). Já não vale a pena tentar combinar tomar um café com ele, mas essas tentativas - que no último ano da vida dele foram só tentativas (e nem sempre era ele que não podia ou desmarcava; nem imaginam como me penitencio por o ter feito) - mantinham-me perto dele, até por vivermos à distância de dois quarteirões ('não te sabia nas redondezas Ricardo... que bom, sinto-me mais protegido, temos de combinar uma café').

Ainda olho para a varanda da casa dele e da Cristina sempre que lá passo, por saber que era lá que recebia os amigos que o visitavam quando já não estava em grandes condições para sair de casa.

Sim, o Zé Pedro faz muita falta. À Cristina, à família, aos Xutos, aos amigos, à música em Portugal, a todos os que precisam de sorrisos daqueles para viver melhor, a todos os que se sentem inspirados por aquela vontade de fazer e continuar a fazer, de constantemente ajudar sem cobrar.

Um dia, perante um problema profissional em que tive de colocar valores acima de interesses pessoais, num processo que acabou por ser algo mediatizado, dele recebi estas palavras: 'Quando se trabalha com o coração, pode demorar mais tempo mas as coisas perduram, neste caso é isso mesmo. Se for preciso qualquer coisa minha, abusa, que tenho todo o prazer'. Era assim o Zé Pedro, sempre, para sempre a 'remar, remar' e a 'forçar a corrente'.

Zé Pedro, Rock n' Roll, o filme Diogo Varela Silva (em casa de quem o músico dos Xutos chegou a viver, quando namorava com uma das filhas de Celeste Rodrigues), que estreia na próxima quinta-feira, dia 30, é um notável documentário sobre a vida do meu (nosso, vosso) ídolo de sempre. Nota-se que foi feito com carinho, mas sem a lamechice deste que aqui escreve; com rigor mas sem perder uma incontornável e desejável dose de emoção, com testemunhos de quem melhor o conheceu, sem exposições gratuitas mas também sem falsos moralismos, com pérolas só possíveis pelo gosto do Zé Pedro em guardar tudo sobre a sua carreira, sobre os concertos que viu, sobre as bandas de que gostava, sobre o planeta Rock n' Roll do qual tanto nos ensinou. O Homem, o músico, o amigo, o Zé... estão ali. Para nunca perdermos as palavras que no filme ele nos deixa: 'uma pessoa ter sempre a noção de que é o que é e que há sempre outro muito maior e que temos que estabelecer uma corrente. Eu estou aqui, este gajo é o ídolo da juventude e não sei quantos, como tantas vezes dizem. Mas isso não é nada. Ainda bem que cheguei aqui, ainda bem que sou reconhecido pelo trabalho que tenho aqui, ainda bem que tenho a banda que tenho e que consigo viver dela. Mas isso é uma passagem de testemunho. Eu recebo como dou. Eu acho que isso é a grande função da vida'. Não somos únicos, claro que não. Mas ele era. É. Será. Para sempre.

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