A relação EUA-Irão: recomeço nuclear em Viena?

Nos últimos dias, por entre a desumanidade que nos chega de Cabo Delgado, a repressão implacável em Myanmar, as chuvas torrenciais em Timor-Leste, a pressão militar russa na Ucrânia, a intensidade do conflito na Etiópia, já para não falarmos na pandemia, passou um pouco por entre os pingos da chuva a reunião na passada terça-feira em Viena. Neste encontro onde estiveram vários actores internacionais o tema foi uma eventual reaproximação entre o Irão e os EUA e, mais concretamente, o dossier nuclear.

Este acordo foi uma das imagens de marca da Administração de Barack Obama e a sua assinatura, em 2015, solidificou a opção de Washington no sentido de integrar o Irão na região em detrimento da Arábia Saudita, cuja promoção da sua interpretação do Islão levantou (e levanta) fortes preocupações. O compromisso deste acordo era simples: em troca de concessões em matéria nuclear o Irão obtinha contrapartidas económicas e financeiras. No contexto da rivalidade política e religiosa entre a Arábia Saudita, que tenta ser o líder da comunidade sunita, e o Irão, líder da comunidade xiita, o Presidente Obama entendeu que este último com cerca de 86 milhões de pessoas (segundo a estimativa do World Fact Book) não deveria ficar de fora de uma solução.

Como bem sabemos a Administração de Donald Trump não só rejeitou o acordo como aplicou um conjunto de sanções. Esta opção de Washington acabou por minar a confiança de Teerão no capacidade norte-americana de cumprir acordos internacionais, como também contribuiu para a aproximação iraniana à China (ou melhor da China ao Irão). Este processo culminou com a assinatura de um acordo de cooperação entre os dois países recentemente. Mais ainda, aquando do assassínio e esquartejamento do jornalista saudita Jamal Khashoggi a resposta de Washington foi simples: silêncio.

Face ao seu antecessor, os primeiros meses da Administração Biden têm sido caracterizados por elementos de ruptura, por exemplo, em matéria de alterações climáticas ou a aceitação plena da realidade da pandemia, e de continuidade, tais como em relação à China. É claro que há vontade de reanimar o acordo nuclear com o Irão e, deste modo, alguns sinais face à Arábia Saudita são interessantes. Os EUA suspenderam o apoio aos sauditas e aos Emiratos Árabes Unidos no contexto da guerra no Iémen, bem como deram ênfase às responsabilidades política sauditas em relação a Khashoggi.

No entanto, esta aproximação não é de todo fácil. A tensão é evidente e este recomeço foi muito embrionário e sem canal directo entre diplomatas iranianos e norte-americanos. Do ponto de vista interno, os problemas são muitos. O Irão de 2021 não é o mesmo de há seis anos e nos

EUA, e ao contrário de questões como a China, não há consenso interno entre Republicanos e Democratas. Em Viena, foram dados os primeiros passos, mas o caminho é claramente incerto.

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