A saia e outros acessórios no Parlamento

Nalguns países, não se entra nos parlamentos ou palácios presidenciais com vestuário excessivamente informal, chegando a ser vedado o acesso a jornalistas em calças de ganga. Não é o caso em Portugal, em que a tradição é descontraída e o protocolo flexível. Num cenário de rigidez, faria sentido discutir a saia escolhida por Rafael Martins para entrar com Joacine Katar Moreira na Assembleia da República. Não sendo o caso, há apenas uma singularidade ou uma afirmação feita através da roupa.

Por ser insólita, a escolha do assessor de Joacine criou um ruído excessivo. Tanto que até a Câmara de Lisboa brincou, nas redes, com o facto de termos homens de saias desde tempos imemoriais, colocando a frase a acompanhar a estátua de D. Afonso Henriques. Um ruído ao qual, de resto, o Livre deve estar atento porque corre o risco de os eleitores o conhecerem mais pelas questões de forma (a gaguez da deputada ou a saia do assessor) do que de conteúdo.

O início dos trabalhos parlamentares foi marcado por outros exemplos de ruído em torno do acessório. Como a abertura de uma porta de acesso do deputado do Chega à bancada, para evitar incómodos agitados pelos centristas - porta que, afinal, não pode ser criada sem autorização prévia, dado que o Parlamento é um imóvel classificado. No caso da saia, verificou-se uma reação epidérmica à diferença. Em relação ao Chega, tem havido incapacidade em lidar com as ameaças ao direito à diferença.

Além de as reclamações serem um sinal de arrogância do CDS, revelam desrespeito por um deputado eleito democraticamente. Acabam por dar a André Ventura pretextos para se vitimizar, o pior combustível para o seu discurso demagógico e camuflado de boas intenções. O medo que a extrema-direita causa deve ser combatido recentrando as críticas nas ideias. A desconstrução do Chega será possível na discussão do conteúdo, das propostas com que se apresenta, e não criando incidentes ou casos que projetam o seu mediatismo.

No dia em que se inicia o debate sobre o programa do Governo, é importante refletir sobre o que é essencial e acessório em política. Nem sempre os debates parlamentares se impõem pela profundidade das propostas ou pela riqueza e civismo das intervenções. Há gestos, segundos e incidentes que mais rapidamente se espalham e marcam os eleitores do que o conteúdo e os diplomas produzidos. E o essencial é ainda mais prioritário numa legislatura que, mais uma vez, vai exigir tanto da Assembleia da República, equilibrando posições e definindo a viabilidade das propostas apresentadas pelo Governo. Quanto às saias, cada um sabe das suas.

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