A Supertaça Europeia de Viktor Orbán

Podemos ter um olhar político sobre a Supertaça Europeia?

Podemos e devemos tendo em conta que a sua realização é na Arena Puskás, em Budapeste. Viktor Orbán, o líder da Hungria, tem vindo a reforçar a destruição paulatina e gradual da democracia no seu país, do Estado de Direito e de liberdades civis como a de expressão. O fortalecimento da «democracia iliberal» húngara é inequívoco. Neste contexto, há também uma ideia sobre o papel do futebol e a sua instrumentalização política.

Para o actual líder político há uma visão do que a Hungria deve ser.

Ou melhor, há um regresso constante ao tempo em que Budapeste era um pilar do Império Austro-Húngaro. Para que não restem dúvidas, basta lermos o seu discurso, que assinalou o centenário do Tratado de Trianon assinado no rescaldo da Primeira Guerra Mundial. Este foi mais um dos Tratados trágicos desta época, da qual o mais conhecido é o de Versalhes, que foi imposto à Alemanha. Trianon foi de facto um «calvário» para a Hungria e implicou enormes perdas territoriais e populacionais, entre outras.

O discurso de Orbán é importante porque nos permite compreender de forma clara a sua visão externa do lugar que a Hungria deve ocupar na Europa e no Mundo. Depois de um século "injusto", está na hora de Budapeste sair da periferia através da sua liderança. Para Orbán, "há cem anos que não somos tão fortes. A nossa força gravitacional política, espiritual, económica e cultural cresce de dia para dia".

Neste projecto de uma "Grande Hungria", o futebol ocupa um lugar especial. Tal como os tempos do Império Austro-Húngaro, também há vontade de reeditar o sucesso daquela selecção magiar que deslumbrou o mundo. A qualidade extraordinária desta equipa é simbolizada por um dos melhores jogadores de sempre: Ferenc Puskás. Se é verdade que Viktor Orbán é um adepto convicto de futebol, também é evidente a instrumentalização politica deste desporto.

A Arena Puskás tem capacidade para mais de 60 mil pessoas e é um estádio moderno. A sua construção foi dispendiosa e controversa. Teria sido um dos estádios no Euro 2020 não fosse a pandemia, e é uma peça importante no regresso magiar aos holofotes do futebol europeu.

Para além das infraestruturas, a vontade de revitalizar o futebol húngaro é clara, mas falta matéria-prima e uma estratégia que dê frutos, ou seja, sucesso desportivo. Na verdade, os objetivos do futebol húngaro no projecto democrático iliberal de Orbán estão ainda muito longe de serem alcançados.

Hoje no relvado e fora dele vamos assistir à ironia perfeita.

No relvado, dois clubes irão disputar um troféu e uma equipa de arbitragem irá zelar pelo cumprimento das regras.

Fora do relvado, na democracia iliberal húngara o árbitro é o próprio Orbán e o fair-play, o mérito e a competição são uma miragem.

Por tudo isto, não podemos ter ilusões sobre o significado da realização da Supertaça Europeia em Budapeste. Um dos grandes vencedores é, sem dúvida, Viktor Orbán.

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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