A surpresa não surpreendente

Quando se trata de eleições locais começamos sempre por dizer que não se devem tirar conclusões nacionais para depois o fazer... Começo, portanto, por alertar para os riscos envolvidos numa análise nacional das eleições locais. Feito o alerta, segue essa análise.

Primeiro, para notar uma tendência que se retoma e reforça (após uma pequena interrupção em 2017): o crescimento da abstenção. Um crescimento que se tem vindo a acentuar. E isto apesar do aparecimento de novos partidos políticos e, no caso das autárquicas, numerosos movimentos independentes. Ao contrário do que muitos previram, a verdade é que nem os novos partidos nem os independentes parecem ter aumentado a participação política, em parte, seguramente, porque, em muitos aspetos, se comportam de forma igual ou pior do que os velhos partidos. Não bastam novas caras ou novos cartazes para fazer política de forma diferente. Isto diz-nos que os problemas no nosso sistema político são bem mais profundos. Não se resolvem com novos protagonistas se estes reproduzirem, quando não agravam, a cultura política dominante.

A segunda grande conclusão é, ao contrário da anterior, sobre uma tendência que se inverte. PS e PSD invertem as respetivas tendências de 15 anos de ganhos (o PS) e de perdas (o PSD) nas autárquicas. Esta inversão era talvez, na verdade, e muitos o dirão, inevitável. Mas a sua simples ocorrência pode ter um efeito amplificador da própria tendência: o discurso da crescente consolidação socialista no poder é interrompido e o PSD pode, se for inteligente, ter aqui o gatilho para uma recuperação política mais forte.

Em particular, aquilo que parecia um declínio consistente e significativo do centro direita nos centros urbanos foi invertido. Lisboa é o sinal mais claro. Claro que existem fatores específicos que ajudam a explicar os resultados em Lisboa: um bom candidato e os vários escândalos que dominaram os últimos tempos da gestão socialista (o mais surpreendente do resultado em Lisboa foi quão baixa foi a votação no PS). Mas o PSD também reforçou a sua votação noutros centros urbanos. Mesmo no Porto o PSD conseguiu um resultado bem acima do esperado e, juntando esse resultado ao de Rio Moreira e dos partidos de direita que o apoiaram, dá mais de 60% do eleitorado a votar no centro e direita. Esta evolução positiva não se limita às áreas metropolitanas. Juntando Coimbra, Portalegre e Funchal o PSD ganha em várias capitais de distrito para além de Lisboa.

Sem os centros urbanos PSD e o centro e direita não conseguem ser uma alternativa séria de governo. Este resultado faz com que isso volte a ser possível, mas está longe de o garantir. PSD e o centro e direita ficaram longe de poder reclamar qualquer vitória. Este resultado ainda não oferece uma alternativa forte nem permite declarar o fim da sua crise existencial. Pode até não ser mais do que um pequeno ressalto resultante de se ter tocado o fundo...

Estas eleições também confirmam a crescente fragmentação política do país. Isto representa um desafio para a estabilidade política e o espaço político moderado. O pior que nos pode acontecer é que a governabilidade fique cada vez mais prisioneira dos extremismos de direita e de esquerda. Mas para evitar isso são os partidos moderados que se têm de reinventar e reconquistar credibilidade junto dos cidadãos. Mais do que reclamar o voto útil têm de mostrar a utilidade do voto neles.

A última conclusão diz respeito a António Costa e ao governo. O primeiro-ministro fez um investimento fortíssimo nestas eleições, ao ponto de confundir, de forma eticamente reprovável, as suas funções de líder partidário com as de primeiro-ministro. A ironia é que tendo, em termos absolutos, ganho as eleições, em termos relativos parece que as perdeu. É a tendência e a avaliação face às expectativas que conta. Se no que diz respeito ao crescimento económico António Costa tem beneficiado de expectativas muito baixas para transformar em sucesso um crescimento medíocre, vai sofrer o contrário na leitura do resultado eleitoral: face às expectativas este resultado é medíocre (pedindo emprestada uma sua expressão, soube a poucochinho). Para mim, isto não é uma grande surpresa. Tinha-o dito: era natural que o PS sofresse, em particular nos centros urbanos, o desgaste revelado pelo Eurobarómetro, que indicou ter sido o governo português o que mais perdeu a confiança dos seus cidadãos na Europa no último ano (14 pontos). Estes resultados provam-no. Ao mesmo tempo, o que se passou em várias cidades, em clara contradição com o que tantas sondagens avançaram, obriga a uma reflexão profunda sobre as sondagens. A sua credibilidade sai tão afetada como a de alguns candidatos.

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