O futuro da democracia

Nos últimos dias espreitei o futuro da democracia e não gostei do que vi. Daniel Innenarity e Paul Kahn, dois dos melhores pensadores da atualidade estão em Lisboa para conversar, esta tarde, na Gulbenkian (perdoem-me a publicidade) sobre o futuro da democracia, mas já anteciparam parte do seu diagnóstico em duas publicações da série Gulbenkian Ideas. O futuro da democracia, de acordo com Innenarity e Kahn, não é promissor. Ambos identificam desafios de natureza existencial. São desafios diferentes, mas que convergem parcialmente. Para Innenarity o desafio da democracia é, nas minhas e não suas palavras, de natureza cognitiva. Innenarity, na sequência do seu mais recente livro (democracia complexa) entende que a democracia e as suas instituições não se souberam adaptar à crescente complexidade da sociedade (que vai da sua crescente heterogeneidade à disrupção introduzida pelas novas tecnologias). Esta inadaptação estende-se à inadaptação das velhas categorias políticas: esquerda ou direita, conservadorismo ou liberalismo. Para Innenarity todas estas ideologias se tornaram, se já não eram, simplistas na sua abordagem à complexidade dos problemas que enfrentamos. Esse simplismo, traduzido em receitas políticas excessivamente ortodoxas qualquer que seja o lado político, conduz, por sua vez, à sua ineficácia em lidar com esses problemas. É esta ineficácia das diferentes ideologias tradicionais na resolução dos problemas complexos de hoje que conduz, paradoxalmente, ao emergir de ideologias populistas que exploram melhor o apelo da simplificação do complexo, tornando-se assim mais convincentes.

Innenarity é defensor de uma democracia que, adaptando-se à complexidade do mundo, por um lado valorize o conhecimento e as instituições que o detenham e, por outro lado, conduza a soluções moderadas que, nas suas nuances e compromissos, são as únicas eficazes perante essa complexidade.

Não é, no entanto, aquilo a que se assiste e é neste ponto que o diagnóstico de Innenarity se cruza com o de Paul Kahn. Para este, o desafio existencial da democracia está intimamente ligado à sua radicalização. Kahn acha que a democracia perdeu a capacidade de reconciliar os diferentes lados políticos. Quem perde não aceita a legitimidade de quem ganha e, logo, a legitimidade do que é decidido. Os conflitos políticos já não são suscetíveis de resolução pelas instituições políticas, tal o grau de radicalização que tomou conta da política. Já não existe debate político, pois este presume que se pretende convencer o outro e se está disponível a ser convencido. Hoje apenas se vota. Nas palavras de Kahn: "as nossas instituições já não capazes de resolver as nossas diferenças, mas apenas de declarar vencedores e perdedores". A razão está no desaparecimento das virtudes cívicas que são necessárias à democracia. Para ele, existe uma crise generalizada em várias instituições intermediárias da democracia que cultivavam essas virtudes: famílias, igrejas, clubes, universidades, partidos e outros.

O diagnóstico de Paul Kahn é ainda mais pessimista do que o de Innerarity. Este reconhece a crescente ineficácia da democracia, mas acha que a sua resiliência é, por agora, suficiente para a própria democracia não estar em risco. Kahn teme, no entanto, que o estado de guerra civil política possa mesmo degenerar em regimes autoritários.

Uma coisa é clara: aquilo que Innenarity considera necessário para que a democracia consiga lidar com a crescente complexidade - maior confiança nas instituições e nas elites - é precisamente aquilo que Kahn considera cada vez mais difícil de conseguir em democracia. Não é uma conclusão otimista, mas para resolver um problema é importante começar por reconhecer a extensão do mesmo.

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