A transparência e o excesso de otimismo

Desde que os primeiros casos do novo coronavírus foram conhecidos em Portugal, a 2 de março, assistimos a uma total centralização e controlo da informação. Os hospitais estão proibidos de responder a jornalistas, a Direção-Geral da Saúde é a entidade por onde passam todos os pedidos de esclarecimento, o detalhe sobre os números é doseado e vai sendo libertado em níveis mínimos.

Sabe-se, por exemplo, muito pouco sobre a distribuição dos casos pelo território e só ontem o relatório nacional começou a apontar estatísticas por concelhos. Ainda assim, os valores apontados somam apenas 54% do total nacional, o que contribuiu para aumentar a confusão e as críticas de autarcas a rebater os dados do seu próprio concelho. Sabe-se igualmente muito pouco sobre a gravidade dos doentes internados. Nem sequer se conhece o número dos que têm ventilação assistida - que não correspondem exatamente aos que estão em unidades de cuidados intensivos. Ou em que hospitais estão estes doentes em estado grave. Ou ainda a distribuição dos óbitos por unidade hospitalar. Ou o detalhe dos doentes que faleceram, permitindo uma leitura mais fina da evolução da doença e das suas consequências.

Percebe-se este cuidado. A gestão da informação é um fator essencial para a confiança dos cidadãos, que, por sua vez, são parte importante na colaboração e consequente sucesso da atuação das autoridades de saúde. Numa pandemia desta dimensão, em que a incerteza domina e em que se prevê uma alteração significativa dos hábitos de vida e da atividade económica ao longo de meses, é essencial evitar o alarme e manter as pessoas esclarecidas e colaborantes. De certa forma, transmitir a imagem de que se está a conseguir controlar a pressão sobre o sistema de saúde e preservar algum otimismo é meio caminho andado para manter a população organizada.

Sendo legítimo, esse otimismo não pode, ainda assim, esconder as dificuldades sentidas por quem está na primeira linha deste combate: os profissionais de saúde. Nos últimos dias, foram ouvidos insistentes apelos ao reforço de equipamentos de proteção individual, bem como alertas sobre o elevado número de médicos, enfermeiros e auxiliares infetados em serviço. Alguns hospitais optaram mesmo por manter profissionais com contactos de risco assintomáticos a trabalhar, obrigando a DGS a emitir uma circular que clarificava os cuidados a ter, incluindo a necessária quarentena - que protege tanto os profissionais, como os doentes com quem se relacionam.

Na segunda-feira, na sequência de notícias dando conta de dificuldades em unidades do Alto Minho, os colaboradores receberam uma carta de boas práticas, lembrando, entre outras coisas, que estão proibidos de fornecer qualquer informação sobre os serviços. Incluindo, claro está, falhas no equipamento e na segurança profissional.

Ouvimos, no arranque da semana, o primeiro-ministro garantir que "até agora não faltou nada e não é previsível que venha a faltar o que quer que seja" no Serviço Nacional de Saúde. Por muito tranquilizadoras que sejam estas palavras, é inegável que tem faltado proteção aos profissionais de saúde. Nem é preciso investigar muito, porque o desespero tem estado patente em pedidos públicos de ajuda, espalhados inclusivamente pelas redes sociais. O primeiro compromisso do Governo tem de ser com os profissionais de saúde. Todos queremos partilhar do otimismo necessário para enfrentarmos esta pandemia, mas não há otimismo que resista à falta de clareza quando alguma coisa falha.

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