A UE e a Alegria Comercial de Xi Jinping

O ano de 2020 terminou com a assinatura de um acordo comercial entre a União Europeia e a República Popular da China. O anúncio foi avançado com pompa e circunstância por ambos os lados. Não questiono os méritos técnicos sobre as questões comerciais e os dossiers sectoriais que serão relançados entre dois actores que são, inegavelmente, colossos económicos. E bem sei que temos de fazer a ressalva de que do lado da União Europeia a confirmação deste Acordo não está ainda concluída. Vamos ver como esse processo decorre.

No entanto, se sairmos da dimensão técnica e burocrática e olharmos para o plano estratégico, ou seja, para a dimensão macro da relação entre Bruxelas, Beijing e Washington a primeira reacção só pode ser de estupefacção. Numa das edições recentes do nosso programa Mapa Mundo o Professor Carlos Gaspar sintetizou bem o impacto deste Acordo com as seguintes palavras: «estupidez estratégica». Donald Trump considerou a China uma «potência revisionista», mas, na prática, faltou músculo e articulação a este desígnio. Tendo em conta a equipa da Administração Biden percebemos que há vontade e capacidade de pensar a relação com a China de forma estratégica e com maior sofisticação. Para os europeus que tanto se queixaram da Administração Trump relativamente ao mundo em geral e à relação transatlântica em especial levar a cabo este acordo neste momento é de facto uma «estupidez».

Mas, para mim é a forma como se premeia a China depois de tudo o que aconteceu em 2020, que é chocante e difícil de compreender. Aliás, temos analisado algumas destas questões neste espaço de opinião. Se pensarmos bem este foi um ano em que a China teve uma gestão do início da pandemia que só pode ser considerada um desastre, para o povo chinês e para o mundo. As reacções epidérmicas dos diplomatas chineses a qualquer pedido de uma investigação independente à situação pandémica demonstram bem a gravidade da situação, como a Austrália bem pode atestar. Assistimos a como Hong Kong foi submetido a uma violação sistemática dos direitos e liberdades da sua sociedade civil ao arrepio de tudo o que ficou acordado com o Reino Unido. Tivemos provas irrefutáveis dos campos de concentração e outras atrocidades em Xinjiang. Em matéria tecnológica, foram reforçadas as preocupações de segurança face à Huawei. De tal forma que levaram a alguns países europeus a tomarem a decisão de afastarem esta empresa chinesa da adjudicação da infraestrutura do 5G. Em consequência, foram alvo de uma diplomacia agressiva por parte da China. Há muito mais, mas parece-me suficiente.

Pelos vistos, prevaleceu a lógica do «business as usual» em versão alemã e francesa. Mas, não tenhamos ilusões sobre o que aconteceu. Não há um triunfo para a UE, mas sim para Xi Jinping. E, para quem acompanha a política internacional é penoso ver tamanha «estupidez estratégica».

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