A verdade sobre as mentiras

Se vos disser que ao longo dos debates para as legislativas os diferentes líderes políticos fizeram pelo menos 34 afirmações manifestamente falsas estarei a ser populista ou a alertar para os riscos do populismo? Este número resulta dos fact checks realizados pelo Polígrafo, o órgão de comunicação social mais especializado em fact checking, ao longo dos diferentes debates. Está longe de ser um número certo, mas vários outros órgãos de comunicação social foram realizando fact checks que comprovam este padrão de comportamento.

Qual a razão porque os políticos o fazem e como é possível que passe impune? As duas questões estão relacionadas pois uma razão porque o fazem é porque tendem a passar impunes. Paradoxalmente, essa impunidade é por vezes maior quanto maior a invenção. Se a desinformação diz respeito a matéria de conhecimento comum, ou pelo menos de conhecimento expectável dos outros políticos, ela fica pelo menos exposta ao contraditório do outro político no debate. É mais complicado se for algo para que ninguém pode ir preparado. Dou um exemplo de que eu próprio fui vítima. No debate com Rui Rio, António Costa afirmou que o governo salvou a TAP da falência das empresas do Senhor Neeleman em todo o mundo. Esta é uma afirmação entretanto verificada como falsa: não apenas as empresas de aviação de Neeleman não faliram como até tem uma nova companhia nos EUA em crescimento acelerado. Mas a verdade é que a afirmação é tão surpreendente que ninguém está inicialmente preparado para a desmontar, exceto se presumisse que o PM mentia intencionalmente nos debates.

Eu próprio, ao comentar este debate na televisão, alertei para o estranho que me parecia essa afirmação, face o que tinha lido em jornais estrangeiros, mas não desmenti o primeiro-ministro. Não tinha condições de verificar o que ele disse naquele instante e não quis presumir que o PM diria algo falso. Não sei o que conduziu o PM a fazer aquela afirmação falsa, mas sei que no dia seguinte ainda ouvi pelo menos um canal televisivo reproduzir essa frase do PM sem a corrigir. Isto terá, seguramente, reforçado em muitos telespetadores a convicção de que era verdadeiro. Este é uma dificuldade séria no combate à desinformação. É que os problemas de iliteracia mediática não se limitam aos cidadãos e atingem, por vezes, os jornalistas. A verdade é que o fact checking devia ser parte das próprias notícias e estas não deveriam reproduzir declarações de um líder político que, entretanto, se tivesse apurado serem falsas. Na verdade, qualquer jornalista dirá que a verificação dos factos faz parte de qualquer notícia. Alguns até propuseram que os moderadores corrigissem afirmações falsas dos líderes políticos durante o próprio debate. A verdade é que, na grande maioria dos casos, é impossível fazer verificação instantânea dos factos (embora estejam em desenvolvimento sistemas de inteligência artificial que pretendem conseguir isso mesmo). O fact checking tem critérios e um processo próprio que o credibilizam, mas também o limitam. Isso permite, por exemplo, distinguir o que são factos suscetíveis de fact checking de opiniões ou mesmo factos que, devido à sua complexidade, não permitem fact checking objetivo.

É aliás também um erro achar que o conhecimento se esgota nos factos. Ele exige capacidade para compreender esses factos, conhecimento do contexto em que eles ocorrem e ser exposto a diferentes interpretações dessa relação entre factos e contexto. Nem tudo o que é verdade ou mentira pode ser verificável enquanto tal.

Se eu disser que a austeridade da troika se deveu ao partido socialista isto pode ser verdade ou mentira, mas não é verificável em termos objetivos, da mesma forma que dizer que a austeridade se deveu ao governo de Passos Coelho também não o é. O que é verificável são factos que nos podem ajudar a tomar posição sobre isso. Eu posso invocar, em defesa da minha tese, que os primeiros cortes aos salários e pensões foram feitos no governo de Socrates e que boa parte dos agravamentos já estavam previstos quer no programa de assistência financeira negociado por esse governo, quer até no famoso PEC 4. Quem defende a tese contrária pode invocar que os cortes acabaram por ser maiores do que estava no programa de assistência financeira. Face a isto eu posso recordar que o défice de 2010 foi muito superior ao estimado quando o programa foi negociado. Posso defender que é essa diferença que explica o agravamento, mas isto já não é verificável como falso ou verdadeiro.

Os factos que mencionei como podendo ser invocados a favor de uma ou outra tese são todos verificáveis, mas as conclusões e causalidades não. Podemos, legitimamente, chegar a diferentes conclusões com base nesses factos. O que não posso é sustentar uma conclusão contrária aos factos. Acontece, no entanto, que muitas vezes a desinformação resiste a esta diferença. A ciência do comportamento ensina-nos que a desinformação não é um mero problema cognitivo. Quando as pessoas se identificam emocionalmente com uma tese estão muito mais predispostas a aceitar tudo o que suporte essa tese e a resistir mesmo aos factos a razões que a desmintam.

O crescimento da desinformação está, assim, muito relacionado com uma política que apela a uma identificação emocional mesmo que desprovida de razão ou contrária aos factos. É por isso que tantos políticos contribuem para isso e é também por isso que a vida não está fácil para aqueles que não querem viver disso.

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