A vulnerabilidade estratégica do Canal do Suez

Este ano não nos dá tréguas nem nos deixa respirar de alívio. A pandemia continua, a tensão internacional entre os EUA, a UE e a China está ao rubro e agora o Canal do Suez, entre os Mares Vermelho e Mediterrâneo, está intransitável. Não de forma intencional, é certo. Segundo a Reuters, a Autoridade do Canal do Suez explicou que um «porta-contentores devido a ventos fortes e uma tempestade de areia acabou por encalhar». Deste modo e devido ao seu comprimento acabou por bloquear por completo esta rota marítima tão importante.

Os mares têm estado na ordem do dia. Temos discutido muito (e bem) a sua importância como fonte de recursos económicos e como barómetro da saúde ambiental do planeta Terra. Numa perspectiva mais comercial, pensamos nos vários perigos que assolam as rotas comerciais marítimas tais como a pirataria ao largo da Somália ou no Golfo da Guiné. E, é claro, não nos podemos esquecer de ter em conta a rivalidade militar crescente entre a grande marinha mundial, a dos EUA, e a da República Popular da China, cuja melhoria tem sido assinalável. Mas o que está a acontecer no Canal do Suez faz regressar aos holofotes a questão dos chamados «strategic choke-points», ou seja, pontos de estrangulamento estratégicos. Para além do Canal do Suez temos também, entre outros, o Estreito de Malaca, cujo possível estrangulamento muito preocupa a China e que tem motivado alguns investimentos como, por exemplo, os seus pipelines em Myanmar. Porquê estratégicos? Segundo a Reuters, passa pelo Canal do Suez «cerca de 12% do volume do comércio mundial» e «cerca de 30% do comércio global de contentores todos os dias.» Há muitos produtos importantes que passam pelo Canal que é a ligação marítima mais directa entre a Europa e a Ásia e, em especial, o Golfo Pérsico. Basta pensarmos na importância do petróleo para as sociedades europeias para percebermos a relevância desta passagem artificial que foi inaugurada em 1869.

O que fazer se o Canal não for desbloqueado, entretanto? A alternativa é uma rota muito bem conhecida dos portugueses, nomeadamente, a do Cabo, cuja abertura foi preconizada por Bartolomeu Dias e depois por Vasco da Gama, mas que é mais demorada (cerca de uma semana). Aliás, a construção do canal do Suez visou justamente criar uma rota directa e mais barata sobretudo em matéria de abastecimento da Europa. As suas várias expansões tentaram dar resposta ao crescimento do comercio internacional e à globalização crescente.

Por tudo isto, a resolução do impasse vivido neste canal é nevrálgica para o comércio mundial. E, deste modo involuntário, o Canal do Suez faz jus à sua fama de ponto de estrangulamento estratégico e à importância da geografia.

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