A Web Summit é uma feira de ilusões?

Setenta mil pessoas vão participar na edição deste ano do Web Summit em Lisboa, onde se apresentam 2.150 startups à procura de negócios e de investidores.

Há anos que falamos de startups (o termo começou a ser usado nos anos 90 do século passado) mas pouca gente faz uma análise crítica a esse fenómeno e muita pouca gente, a começar pelos governos, procura uma resposta para esta pergunta: a "onda" de startups é boa ou má para a sociedade?

O Facebook, quando ainda era uma startup, recebeu em 2005 um investimento de 15 milhões de dólares e em 12 anos ganhou 378 vezes esse valor. Casos como o do Facebook, do Google e, ainda antes, da Apple e da Microsoft criaram a ilusão planetária de que as startups são uma espécie de euromilhões para investidores, que só têm de apostar alguns euros em ideias de jovens que apliquem tecnologias informáticas e de comunicações em produtos e serviços novos ou que inventem aplicações capazes de reduzir significativamente os custos de produção de produtos já existentes.

Aparecem ideias fantásticas e geniais, de que o Web Summit é uma montra espetacular, mas há um pequeno problema escondido por debaixo do glamour e das luzes do espetáculo que a Câmara de Lisboa e o governo português, durante 10 anos, subsidiam com 110 milhões de euros - é que a maior parte das startups são um desastre.

E ainda hoje o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, disse na RTP ser "a coisa mais natural do mundo" que muitas startups fiquem pelo caminho, que essas falências fazem parte do jogo.

Um estudo com três anos da Informa D&B revela que uma em cada três startups fecha ao fim de um ano e outro terço fecha antes de fazer sete anos.

E um estudo da CB Insight perguntou a empreendedores falidos pela razão do seu falhanço: 42% por cento (quase metade) destes supostos génios dos novos negócios responderam que faliram porque os produtos ou serviços que as suas startups faziam não correspondiam a uma verdadeira necessidade do mercado, ou seja, confessam que investiram em algo que, aparentemente, era simplesmente inútil.

Em Portugal temos o caso exemplar da CoolFarm, uma empresa que comercializava um software para produção de plantas em estufas de hidroponia.

A Coolfarm ganhou o prémio "Startup do Ano", dado pela Microsoft em 2017, mas acabou falida um ano depois. A empresa ficou a dever quase um milhão de euros a 32 credores. O investidor que apostou nesta startup perdeu um milhão e meio de euros. Os trabalhadores ficaram no desemprego.

A Cololfmar, na sua curta vida empresarial, só conseguiu fazer uma única venda do produto que inventou.

Mas afinal, o que é uma startup?

Muitas pessoas dizem que qualquer pequena empresa, quando começa a sua atividade pode ser considerada uma startup.

Outros defendem que uma startup é uma empresa com custos de manutenção muito baixos, mas que consegue crescer rapidamente e gerar lucros cada vez maiores.

Mas a definição mais consensual é esta: uma startup é um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócio repetível e escalável, a trabalhar em condições de extrema incerteza.

E é aqui que está o problema: a incerteza destes negócios e as condições deploráveis em que as pessoas que se envolvem nestas startups trabalham, iludidas pela sedução da novidade tecnológica e pela falsa esperança de ficarem rapidamente ricas.

Em Portugal as startups são 1,1% do PIB mas só dão 25 mil empregos, o que, na minha opinião, é muito pouco trabalho criado face à riqueza gerada.

Mesmo assim, a aposta neste jogo de lotaria que é o investimento em startups leva a que o Estado português ande à procura de um dia ter o seu Facebook ou o seu Google com carimbo nacional.

O governo criou em 2016 uma Rede Nacional de Incubadoras que dá ajuda financeira, durante um ano, a projetos de startups e tenta promover a internacionalização das mais bem-sucedidas. Até aqui, tudo bem.

Mas o Estado financia também investidores, frequentemente estrangeiros, que queiram apostar nestas startups - ou seja, o Estado paga a quem quer jogar na lotaria das startups, o Estado apoia investidores que, pelo menos em parte, se financiam com dinheiro nosso e não com dinheiro deles.

As startups e, sobretudo, as pessoas que nelas investem o seu talento e o seu dinheiro têm frequentemente muito mérito. Mas é importante termos consciência de duas coisas:

- A prioridade dos apoios do Estado na área da Economia não pode ser a de financiar a ganância não produtiva. Quem quiser arriscar na incerteza, que o faça, mas sem envolver o dinheiro dos contribuintes.

- Feiras como o Web Summit não podem levar-nos a iludir a realidade: o euromilhões dos negócios só sai a muito poucos, a mesmo muito poucos. As feiras de ilusões divertem, mas não são a realidade.

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