Afinal quantas mortes provocou o mundial do Qatar?

Seguem a bom ritmo os jogos do campeonato do mundo no Qatar. Seguem também, nesse ritmo acelerado, as proibições e limitações da FIFA a que atletas e demais protagonistas do evento, se pronunciem sobre respeito e dignidade para todas as pessoas.

Falo de direitos humanos.

No meio destas polémicas há uma dúvida controversa que subsiste: afinal, quantas mortes provocou o mundial do Qatar?

A Amnistia Internacional num relatório de Agosto de 2021 referiu dados publicados pela Autoridade do Qatar para o Planeamento e Estatísticas: 15 021 trabalhadores migrantes no Qatar morreram naquele país entre 2010 e 2019. Trabalhadores de todas as idades, com todas as profissões e de todas as causas. 63% destas mortes foram de migrantes da Ásia, 87% destes eram homens. Os dados desta autoridade, desagregados, permitem muito poucas ou nenhumas conclusões e parecem querer ocultar algo mais. Não referem as nacionalidades, não referem convenientemente a causa da morte, sendo que a maior parte delas são atribuídas a causas naturais, a insuficiência cardíaca, a problemas respiratórios. Os dados vão também mudando. Até 2016 muitas destas mortes eram atribuídas a "razões desconhecidas", pelo que se percebe que os números e as razões não são de confiança, os reais podem até ser superiores.

O jornal The Guardian verificou dados dos governos do Bangladesh, do Nepal e da Índia sobre mortes de seus nacionais no Qatar entre 2008 e 2019 e estranha que a maioria das mortes sejam atribuídas a causas naturais e a paragens cardíacas, sem mais informação sobre o que levou a estas paragens cardíacas e a estas causas naturais a pessoas jovens.

Uma das exigências que a Amnistia Internacional tem feito à FIFA e à entidade que organiza o mundial de futebol é que clarifiquem estes dados; e deste conjunto de milhares de mortes, clarifiquem quais, e quantas, são as de trabalhadores de infraestruturas e serviços para o mundial. Quais e quantos trabalhadores da construção civil e seguranças, entre outros profissionais trabalhadores migrantes, morreram em consequência do seu trabalho, com jornadas de 12 horas por dia, de 7 dias por semana expostos ao sol, às altas temperaturas, à humidade e poeiras, ininterruptamente, todos os dias, durante meses e até anos, sem direito a dias de descanso.

Oura exigência que fazemos é a de compensar as famílias de trabalhadores mortos e de compensar os muitos milhares de feridos graves e ligeiros que sobreviveram.

Especular números é típico de uma sociedade de informação que se contenta com tweets de 160 carateres e que deturpam a informação dos relatórios das entidades estatais, dos Jornalistas e das Organizações Não-Governamentais. Na era dos soundbites, por vezes, essas meias-verdades sobrepõem-se aos dados, aos factos. Mas é urgente lutarmos contra isto, lutarmos contra o diz-que-disse.

Afinal, quantas mortes provocou o mundial do Qatar? Não sabemos, ninguém sabe e há gente empenhada em que não se saiba. Mas sabê-lo é o primeiro passo que se exige em memória destas pessoas e para o luto das suas famílias.

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