Agora e na hora da nossa morte

Comecei por ir ver ao Google o que lá se diz sobre isto e, entrada após entrada, não entendi o que estava a ler e acabei por desistir. Deve com certeza ser culpa minha mas, ao mesmo tempo, embora ateu de raiz (nem sequer fui baptizado) a curiosidade levou-me desde muito novo a espiolhar as religiões dos outros, a da família da Mãe (e de quase todos os nossos compatriotas) antes das demais. Comecei pela Vulgata que havia lá em casa e acabei, já em Oxford, pela Bíblia do Rei Tiago (King James" Bible, chamam-lhe os nativos), com algumas sortidas em francês pelo meio, rumo à Bíblia de Jerusalém. Dentro do que atinjo com o meu arsenal limitado - só três línguas e todas modernas - a preferência vai para a Bíblia do Rei Tiago que, ao que me consta, já há anos está a passar de moda, sendo favorizada versão mais simples, eu diria mais tosca, preparada com essa finalidade já na segunda metade do século XX por um grupo de especialistas, grandes sabedores em seus domínios mas sem o sopro poético dos seus predecessores.

Entre nós, os desmandos não têm passado do Acordo Ortográfico mas este é desmando gravíssimo, infectando toda a maquinaria electrónica que agora se usa, para quase tudo quanto seja correspondência oficial ou comercial, atropelando o bom senso e o bom gosto de gerações, desde a mais tenra infância. Mas, até agora, ainda ninguém se lembrou de reescrever Os Lusíadas em português contemporâneo - e segundo o Acordo Ortográfico - coisa que, mutatis mutandis, sucedeu, por exemplo, já há alguns decénios na Noruega ao teatro de Ibsen, para satisfação quase geral e horror de minoria mais letrada e sensível, pouco considerada nos dias que vão correndo nessa terra de lenhadores e pescadores, ornada de navegadores vikings ferocíssimos na antiguidade e de fundo soberano (petróleo) riquíssimo nos dias de hoje e do futuro próximo. Dizem-me, de resto, que é o fundo soberano mais bem gerido do mundo - e, segundo visitantes recentes e conhecedores, come-se cada vez melhor em Oslo. Além disso, como todos os escandinavos contemporâneos, os noruegueses tratam-se uns aos outros melhor do que os vizinhos do Sul fazem, também uns aos outros. Mistérios do Norte.

Agora e na hora da nossa morte. A primeira pessoa do plural inspira pensamento - ou sentimento? - comunitário, isto é, faz-nos companhia; a morte é de todos, embora no nosso tempo seja cada vez mais das velhas e dos velhos. Dantes não era assim: morria-se sobretudo em criança; o combate contra a mortalidade infantil fez parte da saga da modernidade em todo o mundo, a certa altura comparavam-se números, altos demais em Portugal até há quase um século. Lembro-me de trabalhador rural da Vendinha, entre Évora e Reguengos, que tivera seis filhos mas só lhe sobravam dois (o mais velho nessa altura com 12 anos) a dizer-me, apontando para um deles: «Isto é gado muito ruim de criar».

Agora nascem menos, morrem menos e, por isso, no fim de contas, menos somos.

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