Algo, no hospital ou no sistema, está mal

Encerrar a urgência pediátrica do Hospital Garcia de Orta parece ter-se tornado um ato regular de gestão. E isto não acontece numa zona de baixa densidade populacional devido à falta de procura dos serviços mas à falta de capacidade da oferta, a que não haja clínicos suficientes.

Eu conheço esta urgência pediátrica e a sua importância para as famílias da Margem Sul. Quando a minha filha mais velha nasceu, vivia em Almada. Ela nasceu cedo numa manhã de agosto de 1997, há 22 anos, no Hospital Garcia de Orta. Demorou poucos dias a voltar ao hospital e lá fomos, eu e a mãe dela, às urgências, porque o bebé estava amarelo, tinha uma daquelas icterícias dos recém-nascidos. Fomos porque a urgência estava aberta, claro.

Nos seus primeiros anos de vida, voltei a esta urgência, de dia e de noite, à semana e ao fim de semana, com coisas que se revelaram banais e outras que eram sérias.

A urgência esteve sempre aberta, os tempos de espera foram sempre razoáveis, embora sensíveis à hora do dia. Era certo que chegar a seguir à telenovela da noite, à época uma instituição, implicava esperar mais e o mesmo acontecia quando era necessário aparecer em épocas de gripes e resfriados ou viroses, como passaram a chamar às doenças sem nome. Mas quando eram verdadeiras urgências (e algumas foram), como quando a minha filha mais velha atirou um triciclo e a sua cabeça contra uma jarra de porcelana, a urgência não lhe faltou. Assim como não faltou a tratar as suas pneumonias ou os problemas respiratórios que, num país com um mau sistema de saúde pública, poderiam ter-lhe causado danos de saúde sérios.

É enquanto utente que fui da urgência pediátrica do Hospital Garcia de Orta, há duas décadas, que não me conformo com o novo normal do hospital. Leio que a alternativa que teria permitido que tal não acontecesse dependeria de um acordo com a União das Misericórdias Portuguesas, que muito respeito e apoio, mas que não se terá concretizado em tempo. Mas pergunto-me como pode um hospital como o Garcia de Orta, na zona tão densamente povoada e demograficamente dinâmica que serve, não reunir as condições para que esta valência funcione normalmente.

Sei o que é ser pai de um bebé com uma situação que entendemos como ser de urgência - tenhamos ou não razão - e não me conformo com a ideia de que as mães e pais de Almada, do Seixal, de toda a zona servida pelo Garcia de Orta, devem, como há muitas décadas atrás, procurar o carro - se o tiverem - ou pagar táxis ou Ubers a meio da noite de um sábado ou domingo para correr a Lisboa para uma situação de urgência com os seus filhos, em relação aos quais têm as ansiedades que todos os pais têm, em relação aos quais nunca estão seguros se estão a alarmar-se sem razão ou a subvalorizar sintomas que podem destruir-lhes as vidas.

Por isso não posso achar normal este regresso ao passado que é forçar os cidadãos da margem sul com filhos pequenos a voltarem a ter que correr para Lisboa, como antes da abertura do Hospital de Almada e não percebo a passividade com que todos parecem aceitar esta situação, que se repete há semanas. Por muito menos, quando vivia em Almada, eu teria armado um pé-de-vento e usado as redes sociais (se na altura as houvesse) para dizer que o serviço nacional de saúde estava a falhar as suas obrigações com os bebés e crianças da Margem Sul.

Não pode ser normal a urgência pediátrica dos cidadãos da Margem Sul estar mais distante hoje que há vinte anos. Não pode ser normal que o hospital não consiga ter o corpo clínico com a dimensão necessária para prestar este serviço. Algo, no hospital ou no sistema, está mal.

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