Alguém compreende a estratégia do Governo?

Depois da intenção de tornar obrigatória a aplicação StayAway Covid, as restrições à circulação no próximo fim de semana são mais um daqueles "abanões" que parece que são, mas não são. O anúncio das limitações, na semana passada, levou o país a recordar a situação excecional vivida na Páscoa e no 1º de Maio, dando a imagem de um Governo disposto a medidas duras para conter a pandemia. A publicação das normas, contudo, mostra uma realidade bem diversa da vivida na primavera. São previstas tantas exceções, bem como movimentos em que a palavra de honra de honra dos cidadãos basta, que a mensagem transmitida torna-se difusa e levanta sucessivos níveis de problemas.

Desde logo, um problema de fiscalização. Se o papel das autoridades já era difícil num país em pleno funcionamento, como fica a sua capacidade de intervenção nestas circunstâncias? "Dramática", como classificou o presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP). A esta dificuldade junta-se o risco de impugnação das multas, dadas as dúvidas lançadas por constitucionalistas - a restrição de liberdades e garantias exige adequação e proporcionalidade, o que não é o caso face às desigualdades e exceções criadas.

A somar ao quadro legal e penal, acresce o facto de a mensagem dificilmente ser assimilada pela população. Com esta falta de assertividade, é muito difícil perceber a estratégia do Governo. Queremos parar e fechar o país? Ou queremos parar um bocadinho, sem beliscar a atividade económica? Fechamos localmente, quando for necessário? Ou resistimos a cercas e outras medidas penosas que geram desigualdades? As variações no discurso e a falta de perceção muito clara do caminho que queremos seguir é exatamente o inverso do que precisamos para ter todas as pessoas a remar no mesmo sentido.

O que se reflete, ao nível local, no caos de posições assumidas publicamente pelas autarquias do Grande Porto, onde o vírus circula a uma velocidade superior à média no resto do país. Ouvimos alguns rejeitar o cenário de confinamento (Gaia), outros reivindicar a criação de uma cerca sanitária (Matosinhos), ou ainda pedir um recolher obrigatório (Gondomar). O papel dos coordenadores regionais na gestão da pandemia aparenta ser insuficiente e incapaz de orientar uma posição concertada para o mesmo território.

A mesma falta de assertividade e de planeamento estratégico sente-se em decisões importantes a médio prazo, cada vez que se questiona o trabalho preparatório para a vacinação contra a covid-19. Com os ensaios a aproximarem-se da reta final, mesmo os especialistas internacionais mais céticos começam a acreditar na possibilidade de uma vacina disponível até final do ano. Como alertou Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, a grande questão será como fazê-la chegar às pessoas que precisam dela o mais depressa possível.

Vários países europeus já divulgaram os seus planos, mostrando que intervirão de forma imediata assim que a vacina ficar disponível. Ontem ouvimos o Centro Europeu do Controlo de Doenças alertar que o planeamento atempado é essencial, uma vez que os recursos e logística habituais para a gripe não devem ser suficientes para uma vacinação em massa. Apesar das questões insistentes da Comunicação Social, Governo e Direção-Geral da Saúde nada esclarecem sobre o ponto em que estamos.

Transparência e clareza são cruciais no momento difícil que vivemos, em que ainda estamos a tempo de evitar o descontrolo da doença e a rutura dos serviços de saúde. O Governo pede responsabilidade e colaboração, e é verdade que os comportamentos individuais são parte essencial nesta equação, mas serão tanto mais ajustados quanto se perceber a estratégia que seguimos. E, no estado da tão falada fadiga pandémica em que estamos, a vacinação pode ser um motivo adicional para suportar o esforço que nos é pedido. Aguentamos melhor as medidas que nos impuserem se tivermos um horizonte de esperança.

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