Ana Gomes responde a Pedro Tadeu

O comentador da TSF Pedro Tadeu produziu afirmações a meu respeito na crónica de ontem (segunda-feira) transmitida pela TSF.

A opinião do Sr. Pedro Tadeu é-me indiferente. Mas já não posso tolerar que, do que eu disse numa entrevista ao jornalista Nuno Ribeiro, publicada em 8 de Agosto de 2018 no jornal "Público", o Sr. Pedro Tadeu parta para me difamar. Sem cuidar de procurar saber o que efectivamente se teria passado e interpretando mal o que leu, o Sr. Pedro Tadeu afirmou, referindo-se à minha actuação como Chefe da Secção de Interesses de Portugal em Jacarta em 1999, que "começou a comprar passaportes indonésios com origem na ilha das Flores", "ela vendia-os" e ainda que eu estaria a "fazer contrabando de passaportes indonésios".

Vamos aos factos:

Em 1999, ao aproximar-se o referendo que teve lugar em 30 de Agosto em Timor Leste, centenas de timorenses residentes na Indonésia, na maioria estudantes, dirigiram-se à Secção de Interesses de Portugal em Jacarta, pedindo apoio para sair daquele país. Sentiam-se ameaçados, com a percepção de ter as suas vidas em risco.

Conhecedor destas pressões após uma visita a Timor Leste e a Jacarta, o Senhor Padre Vítor Melícias, nomeado em Junho de 99 Comissário para o Apoio à Transição em Timor Leste (CATTL), no MNE, mandou transferir, a meu pedido, para a Secção de Interesses uma verba para acudir a emergências. No relatório do CATTL de 1999/2000, de resto, dá-se conta dos objectivos : [Página 8:] "Antes da consulta popular de 30 de Agosto, alguns milhares de timorenses encontravam-se em território indonésio. Devido à insegurança que se vivia, esses timorenses solicitaram a sua deslocação para Portugal e para a Austrália. O Comissário para o Apoio à Transição em Timor-Leste, relativamente aos timorenses que haviam manifestado vontade de virem para Portugal ou para Macau, algumas dezenas, e através da Missão Diplomática Portuguesa em Jacarta, pela pessoa da Dr. Ana Gomes, apoiou essas deslocações e suportou os seus encargos, nomeadamente, as viagens, os vistos, o alojamento, a alimentação e o vestuário."

O que o relatório do CATTL não especifica, naturalmente, é que para os timorenses poderem sair da Indonésia (e a maior parte acabou por ir temporariamente para a Austrália), precisavam de passaportes indonésios. A Secção de Interesses não tinha, capacidade, nem competência, para fornecer urgentemente centenas de passaportes portugueses; nem isso adiantaria para sair da Indonésia, país com o qual não tínhamos ainda relações diplomáticas. A solução era ajudar a adquirir passaportes indonésios. Tomei, por isso, a decisão de o fazer - obviamente dando dela conta ao MNE. E assim aconteceu: os timorenses organizaram-se para preencher formulários e a Secção de Interesses ajudou a que adquirissem passaportes indonésios. Legalmente, sublinho.

Recordo que então, à face da lei indonésia, os timorenses eram cidadãos daquele país. Muitos timorenses contaram-me que, temendo retaliações ou demoras, em vez de indicarem nos formulários que eram de Timor Leste, haviam preferido dar como origem a ilha das Flores, onde, por razões históricas, muitos nomes e apelidos são também portugueses.

Os passaportes tiveram de ser pedidos com urgência. Naquela altura, a Indonésia padecia de graves problemas de corrupção na administração pública: o súbito afluxo de pedidos nos departamentos estatais que emitiam os passaportes levou a que as taxas de urgência fossem inflacionadas. E assim, começamos a ajudar a adquirir passaportes por cerca de 800 mil rupias (na altura cerca de 80 dólares, creio), para no final cada passaporte urgente custar cerca de 3/4 vezes mais... final que ocorreu já depois do referendo, quando muitos timorenses conseguiram sair para a Austrália.

Todas estas - e outras - despesas, no quadro do apoio de emergência aos timorenses na Indonésia, foram comunicadas ao CATTL/MNE, escrupulosamente documentadas e, obviamente, enviadas para os registos do MNE, em Lisboa, onde podem ser consultadas.

Devo explicitar que, para além da decisão de pagar a compra dos passaportes, que assumo, não tive a menor intervenção em todo o processo de submissão dos formulários e obtenção dos justificativos dos custos, o que foi exemplar e zelosamente assegurado pelo pessoal administrativo da Secção de Interesses.

A verdade é que foram legalmente comprados passaportes indonésios. Do que eu disse ao "Público" não é de modo nenhum lícito concluir que eu estive a "vender passaportes" ou "fazer contrabando de passaportes". Só uma interpretação malévola o pode inferir.

*a autora não segue o acordo ortográfico de 1990

Outras Notícias

Patrocinado

Apoio de

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de