Antes ingovernável do que vermelho

Daniel Oliveira começa por lembrar que, "até à geringonça, o único governo minoritário que completou uma legislatura foi o primeiro de António Guterres", que, no segundo mandato, "tinha exatamente metade dos deputados".

"Sobreviveu à custa de um suborno político de um deputado do CDS - o famoso orçamento limiano -, e depois morreu." Depois disso, a geringonça "foi a mais longa solução governativa sem maioria absoluta de um partido e a quarta mais longa desde o 25 de Abril".

Passados seis anos, no entanto, "conseguiu instalar-se a ideia de que vivemos numa enorme instabilidade", aponta o jornalista, no seu espaço habitual de Opinião na TSF. "A perceção de que a esquerda não se entende é matraqueada diariamente, mas entendeu-se, por mais tempo do que alguma vez a direita o conseguiu fazer, e por mais tempo do que algum tipo de bloco central, formal ou informal, alguma vez subsistiu", advoga Daniel Oliveira.

"Também se vende a ideia de que foi o nascimento da geringonça que levou a uma radicalização da direita e até ao nascimento do Chega." Mas, para o cronista, "a relação de causalidade é conveniente", e a "radicalização e pulverização da direita é um fenómeno tardio em Portugal, que aconteceu em toda a Europa há bastante tempo".

No entanto, é inegável que a geringonça tenha provocado uma mudança, admite Daniel Oliveira. "Votar no PCP e no Bloco deixou de ser indiferente à governação, e o PS passou a ter, como o PSD tinha, potenciais aliados no seu campo político. Só que o nascimento e crescimento do Chega deixou o PSD com o problema que o PS antes tinha: se alguma vez o PSD se aliar ao Chega, as pessoas rapidamente perceberão que a situação não é simétrica ao que aconteceu à esquerda. Era simétrica quando o CDS era o aliado, porque, ao contrário do Chega, Bloco e PCP nunca fizeram propostas nos últimos seis anos que pusessem em causa valores elementares do Estado de direito democrático."

O jornalista refere que "a única solução que até hoje levou a um terramoto político foi o bloco central", já que, quando experimentado formalmente, "fez nascer um partido - PRD - que não teve um ou dois deputados, mas 18% dos votos, em 1985".

"O efeito do PS foi arrasador, e, depois de o PRD se esvaziar, levou a uma transferência massiva de votos para o PSD, oferecendo-lhe oito anos de poder absoluto", rememora, alertando para os perigos de um bloco central. Por isso, agora, quase quatro décadas depois, "ninguém se atreve a defender essa tão virtuosa estabilidade".

Contudo, há, a assinalar, a defesa, mais explícita ou mais implícita, "dos blocos centrais informais", como o Presidente da República fez, "dando o seu exemplo, quando era líder do PSD", sublinha o jornalista. "É bom lembrar que essa experiência levou à queda de Marcelo, sem sequer ter ido a votos. Caiu com a ajuda de Paulo Portas, e sem a defesa do seu próprio partido."

Daniel Oliveira conclui então que "todas as soluções do bloco central, informal ou não, morreram antes de terminar uma legislatura, ou puniram os líderes do maior partido da oposição". O que acontece é, resume o jornalista: "À primeira dificuldade de um Governo, compensa fazê-lo cair."

Trata-se do mesmo dilema com que Passos Coelho foi confrontado, em 2011. "Ou vão a eleições, ou perdem o partido", alerta o cronista. "Claro que a solução dos partidos de maioria absoluta é a mais estável de todas." Sobre esta realidade, há duas experiências que servem de exemplo: a governação de Cavaco e a de Sócrates. "As duas foram oportunidades perdidas para o país, e a arrogância do poder dessas duas experiências não as aconselha."

Já quanto a António Costa, as declarações em que refere que "ninguém tem de ter medo da maioria absoluta, até porque há um Presidente", são rebatidas pelo jornalista: "Nem um Presidente tão astuto como Mário Soares impediu o poder absoluto de Cavaco Silva."

Quanto à arrogância, acrescenta Daniel Oliveira, "bastavam sondagens que aproximavam o PS da maioria absoluta para que ela se aflorasse em António Costa". O jornalista conclui que esta soberba de Cavaco e de Sócrates não resultavam apenas das suas personalidades, "muitíssimo diferentes, por sinal".

"O que leva à arrogância do poder em maioria absoluta é um país que tem poucos contrapesos cívicos, sociais e sindicais", alerta. "Ninguém que tenha memória deseja uma maioria absoluta, muito menos para quem já está no poder há seis anos, e ninguém que tenha memória acha que uma solução de bloco central informal duraria mais do que dois anos."

Daniel Oliveira lamenta, assim, que sejam estas as soluções de que mais se fala, "porque se concluiu que a esquerda que garantiu o mais longo acordo partidário da nossa História democrática não se entende". Por isso, a "obsessão pelo bloco central nada tem que ver com estabilidade", vinca.

O jornalista considera que, "não havendo maioria viável de direita, a maioria absoluta do PS ou a instabilidade do bloco central informal é a única solução que afasta os partidos mais à esquerda do poder".

"É evidente que a geringonça sai muito maltratada desta crise, porque, em 2019, ela só devia ter sobrevivido se existisse um acordo de legislatura, mas, por mais instáveis que sejam as condições para repetir acordos à esquerda, depois de 30 de janeiro, as do bloco central serão muito piores. Só que a prioridade não é a governabilidade; não falta quem esteja disponível para soluções que não durarão mais do que dois Orçamentos, só para ter a certeza de que se afastam o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista das proximidades do poder."

Ao reerguer o muro à esquerda, vaticina o jornalista, fica resolvido o novo problema da direita: não tem "como se entender com o Chega, como o caso dos Açores, ao fim de menos de um ano, tornou evidente". Ainda que Ventura fosse "confiável", este equilíbrio custaria os votos dos eleitores ao centro, comenta Daniel Oliveira.

"Antes da geringonça, o PSD podia aliar-se à direita, enquanto o PS só se podia aliar ao próprio PSD. Com a geringonça, o PS resolveu esse problema. Mas, com a substituição do CDS pelo Chega, o PSD ficou na situação em que o PS esteve durante décadas." Esta análise leva o cronista a dizer que "reerguer os muros que a geringonça destruiu é o que permite que os dois partidos fiquem na mesma situação".

Blocos centrais apresentam-se como "inviáveis para soluções minimamente estáveis", reforça o jornalista.

"Na Guerra Fria, dizia-se 'antes morto do que vermelho'. Agora, diz-se 'antes ingovernável do que à esquerda'."

* Texto redigido por Catarina Maldonado Vasconcelos

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