António Costa não devia apoiar Luís Filipe Vieira?

É bastante fácil encontrar razões para dizer que o primeiro-ministro de Portugal, António Costa, não devia prestar apoio público e, ainda menos, pertencer a uma Comissão de Honra de uma candidatura à presidência de um clube de futebol.

Em primeiro lugar, como Costa disse no tempo em que empurrou João Soares para fora do ministério da Cultura, por este ter ameaçado dar umas bofetadas a um articulista, os "ministros têm de se lembrar sempre que são membros do Governo".

Quando o primeiro-ministro recusa responder a perguntas sobre o seu apoio à candidatura de Luís Filipe Vieira, alegando que esse assunto não é da esfera política, entra, portanto, em contradição insanável com a sua prática anterior e com a exigência que coloca a todos os homens e a todas as mulheres que nomeia para o seu governo.

Costa espera que os seus ministros, enquanto o são, abdiquem de uma vida pública fora da política. O mesmo Costa, contraditoriamente, acha que, enquanto líder do Governo de Portugal, pode ter o privilégio de tomar posições públicas que não se confundem com a vida política.

Quando Costa diz que a sua participação na Comissão de Honra de um dos candidatos à presidência do Benfica é (e cito) "um assunto que rigorosamente nada tem a ver com a vida política, nem com as funções que exerço, que exerci - é um assunto completamente estranho à vida política" (fim de citação) está a ser, desculpem, falacioso.

O apoio do primeiro-ministro à candidatura de Luís Filipe Vieira começa logo por ter efeito político por causa da conjuntura especial em que essa aprovação ocorre.

Como toda a gente sabe, Vieira está a ser investigado pelo Ministério Público em mais do que um processo. Isto, em si, não tem mal nenhum, pois o Ministério Público farta-se de investigar inocentes e vamos demorar muito tempo até perceber se há verdadeiro fundamento para essas suspeitas - e não é por os jornais publicarem informações sobre isso que essa dúvida fica de alguma forma sanada. Teremos de esperar até que a Justiça resolva, no seu ritmo próprio, o dilema.

O problema é que prestar apoio público a um líder de uma instituição tão poderosa e popular como o Benfica, alguém que, mal ou bem, está sob grave suspeita policial, pode ser legitimamente interpretado como um endosso moral, uma caução de honorabilidade, uma garantia de probidade dadas a um alvo da Justiça.

Ora, se qualquer cidadão de destaque pode, sem problemas, credibilizar alguém que está a ser investigado pelas autoridades, o mesmo não se pode aplicar quando esse cidadão é um político, um juiz, um magistrado ou um polícia - há um conflito de interesses evidente.

O que se passa é que o líder do governo está a meter a cabeça no cepo por uma pessoa que o Estado colocou sob desconfiança. Isto, ao contrário do que diz Costa, é política pura.

Toda esta situação pode ainda dar azo a que os investigadores dos processos de Vieira ou, eventualmente, os seus porta-vozes nos jornais, digam um dia que estão a ser direta ou indiretamente pressionados pelo governo - na vida porca da política e com o fantasma da prisão preventiva e do julgamento do ex-primeiro-ministro José Sócrates no passado e no presente do Partido Socialista, nada será mais fácil de pôr a circular e António Costa, com esta atitude, está a dar armas para que essa eventual falsidade acabe por ganhar credibilidade.

Tudo isto, sendo triste, é meramente conjuntural. Mais profundo e mais grave é a promiscuidade, cada vez maior, entre a política e o futebol.

A relação excessivamente próxima da política ao futebol, aos seus negócios e às suas paixões, é um veículo de promoção dos políticos e um meio de amplificação da influência dos dirigentes desportivos.

Mesmo quando os protagonistas são pessoas sérias esta confusão entre política e futebol distorce a visão da opinião pública sobre os atores políticos e sobre os agentes desportivos; empurra os políticos para comportamentos irracionais; conduz os dirigentes desportivos a tentarem influenciar a política; espalha desconfiança sobre a isenção dos líderes dos vários órgãos do Estado; lança suspeitas sobre a lisura dos negócios do futebol; influencia resultados eleitorais na política e nos clubes; suscita traficância de empregos da política para o futebol e vice-versa; leva adeptos e sócios, cegos de paixão clubística básica, a mimetizar comportamentos de estádio ou de tasca e a radicalizar a sua própria participação na vida cívica, social, profissional e política.

Daqui até à corrupção criminal e à amplificação do populismo irracional vai apenas, como é óbvio, um pequeno passo.

Por isso, não critico apenas António Costa neste apoio a Luís Filipe Vieira, critico, com poucas exceções como Rui Rio, quase todos os governantes, presidentes de Câmara e deputados, antigos e novos, bem como quase todos os partidos políticos pelos seus apoios desnecessários para o desenvolvimento deste desporto e pelos seus salamaleques reverentes que alimentaram décadas de promiscuidade entre a política e o futebol, um verdadeiro cancro da democracia.

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