As eleições entre o centro político e o voto útil

Primeiro, um registro de interesses. Estive no Congresso do PSD como delegado. O meu ponto de vista sobre esse Congresso é assim o ponto de vista de um participante e interessado. Não é um comentário objetivo ou independente embora procure que seja um comentário intelectualmente honesto.

A principal notícia do Congresso diz respeito a algo que tenho vindo a defender (e repeti, aliás, neste congresso). Da mesma forma que o PSD assumiu, através de Rui Rio, a disponibilidade para vir a viabilizar um governo do Partido Socialista, caso este vença as eleições sem maioria, o PS tem de esclarecer perante os portugueses se tem a mesma disponibilidade ou não no caso de uma eventual vitória do PSD.

Esta questão não é apenas relevante em termos da transparência devida aos eleitores. Ela vai ser muito importante no combate pelo centro político. É que inerente a esta questão está uma escolha fundamental para a política portuguesa: os partidos políticos do centro, se não existir maioria parlamentar, preferem viabilizar-se mutuamente ou ir para o poder reféns da extrema-direita ou da extrema-esquerda? Como tenho dito, na ausência deste acordo tácito, a crescente fragmentação da política portuguesa conduzirá a uma crescente polarização e radicalização.

António Costa sabe o desafio político que isto representa. Se demonstrar a mesma disponibilidade do PSD para viabilizar quem ganhe entre PS e PSD abdica do trunfo que usou em 2015 para chegar ao poder, mesmo em caso de derrota, e reconhece o falhanço daquilo que durante os últimos seis anos apresentou como a sua principal herança política: trazer o Bloco e o PC para o arco da governação. Mas se não manifestar essa disponibilidade e recusar responder, vai reforçar a perceção de que a sua famosa habilidade política é uma capa para o mero oportunismo e aparece, ao mesmo tempo, prisioneiro da extrema-esquerda. Deixa assim ao PSD o espaço político do centro. Rio percebeu isto mesmo e vai cavalgar este ponto ao longo da campanha.

O discurso de António Costa, ainda no sábado, foi uma tentativa de passar por cima deste tema colocando o foco numa maioria absoluta e na bipolarização política. Tenta assim separar-se dos seus parceiros de esquerda ao mesmo tempo que procura promover o voto útil do eleitorado destes no PS. Para o fazer não hesitou em apresentar as eleições legislativas de forma contraditória com o que defendeu após as eleições de 2015: diz agora que as legislativas são uma escolha entre candidatos a Primeiro-ministro quando em 2015, para defender que o Primeiro Ministro não devia necessariamente ser quem ganha as eleições, argumentou que serviam "apenas" para escolher os deputados.

A grande dificuldade de António Costa é que o seu apelo ao voto útil e à bipolarização contraria toda a narrativa dos últimos seis anos. A tese de que o PS não pode ficar refém da irresponsabilidade do Bloco e do PC contraria o que apresentou como o seu grande legado político: que os tinha trazido para o arco da responsabilidade governativa.

Rui Rio também procurou reconciliar o apelo ao centro com o apelo ao voto útil dos eleitores à sua direita. A forma como falou da importância da segurança, rigor e disciplina pareceu dirigida a seduzir parte desse eleitorado. O seu é desafio menor, no entanto, que o de António Costa. Rio não tem o ónus da responsabilidade política pela atual crise e tem sido bastante transparente sobre a sua política de coligações.

É no sucesso do equilíbrio entre o combate pelo centro e pelo voto útil à direita e esquerda que se vai decidir, em boa medida, quem vencerá as próximas eleições. Sou suspeito, mas penso que Rui Rio parte em vantagem nesta matéria. A clareza que já assumiu em matéria de coligações reforça o seu mais forte ativo político: a autenticidade. Enquanto se António Costa continuar a evitar responder continuará a aprofundar o seu maior passivo: a ideia de que as suas ambições prevalecem sobre as suas convicções.

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