As piadas do PSD

A semana arrancou com a anedota do menino Zéquinha a conversar sobre resultados eleitorais com a professora. Em escassos dois dias, já sobravam críticas e acusações de parte a parte, na campanha para a segunda volta das eleições no PSD. Luís Montenegro reagiu às insinuações de Rui Rio sobre a oferta de lugares a troco de votos e respondeu na mesma moeda, sempre sem concretizar as referências vagas. Ouviram-se acusações de "mesquinhez" em episódios como a retirada do retrato de Rui Rio na sede do PSD em Braga. O PSD-Madeira deitou mais achas na fogueira com a direção nacional, anunciando um boicote no próximo sábado. Tudo somado, sobram exemplos reveladores de alguma desorientação e intervenções carregadas de indiretas e meias-palavras, numa eleição que tem contribuído muito pouco para dignificar o partido e a ação política.

O vazio de ideias de certa forma ajuda a explicar a grande quantidade de militantes que não foi votar no último fim de semana - nove mil num universo de 40.604 inscritos, o que corresponde a cerca de um quarto do total. E, a continuar assim, parece difícil que venham a sentir-se mobilizados nesta segunda volta.

A possibilidade de mexer na abstenção e ir buscar novos votantes é, de resto, a grande incógnita para esta segunda votação. Porque, embora Luís Montenegro se esforce por apontar o facto de, matematicamente, os votos de Miguel Pinto Luz somados aos seus serem suficientes para derrotar Rui Rio, as contas não podem ser feitas dessa forma. A redistribuição de nomes que estiveram com o candidato derrotado é pública e mostra uma clara divisão. Rui Rio, apesar de tão contestado internamente e responsabilizado pelos dois desaires eleitorais em 2019, continua a merecer a confiança de muitos militantes. E Luís Montenegro não conseguiu assumir-se como uma alternativa clara.

O que salta à vista, à medida que a semana vai avançando, é a falta de entusiasmo e de energia no partido. O que mostra bem a dimensão gigantesca da tarefa do próximo líder. Tem de começar por unir o partido, que tem passado os últimos anos em guerrilha interna. Só assim pode ambicionar um crescimento no embate autárquico, que se sabe à partida ser difícil e constituir um ponto estratégico importante para conseguir uma viragem à Direita.

E o que diz isto tudo a um cidadão que não tenha nenhuma proximidade ou simpatia pelo PSD? A tendência é para encararmos as votações internas como um processo fechado, que pouco diz à generalidade dos eleitores. A ação política e partidária tem, contudo, impacto no espaço que é de todos. Desde logo porque uma oposição eficaz e forte é essencial para o funcionamento saudável de qualquer democracia, exercendo o seu papel de fiscalização e apresentando propostas. Num sentido ainda mais vasto, porque toda a sociedade sai a ganhar com a boa saúde e a dignificação dos protagonistas e das entidades políticas. O afastamento dos cidadãos da vida pública e a entrada de atores extremistas e populistas em cena tem uma das suas raízes primordiais na falta de confiança nos partidos tradicionais.

A julgar pelo que temos visto nos últimos dias, há poucos motivos para acreditar em lideranças mobilizadoras ou projetos inovadores. À direita ou ao centro, seja qual for o posicionamento que venha a vingar, nada de novo se perspetiva.

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