Banif: falta uma personagem a este thriller de série B

A meio do inquérito já se adivinham conclusões: pressão europeia, supervisão macia, e um resgate público, à luz de hoje, ruinoso. Mas falta aqui qualquer coisa. Se calhar Bruxelas tem mesmo razão.

Mais de 20 audições, cerca de uma centena de horas de debate, milhares de páginas de documentação. Vamos a meio da Comissão Parlamentar de Inquérito à resolução do Banif, mas com a exceção de alguns detalhes, os deputados já têm material suficiente para começar a tirar conclusões. E já o começaram a fazer - facto tornado evidente no debate que a TSF organizou sobre o tema.

É como num mau filme de suspense ou de barra de tribunal - ainda vamos a meio do segundo ato e já adivinhamos o final. E esse epílogo é um cocktail ao qual falta um ingrediente fundamental. Mas vamos primeiro aos que lá estão.

O primeiro é a pressão da Comissão Europeia, que nunca acreditou na viabilidade do Banif e fez, desde o início, pressão para que o banco, tal como o conhecíamos, terminasse.

O segundo ingrediente é o modelo de supervisão. O Banco de Portugal, que garantia em 2013 que a injeção de 1100 milhões de euros no Banif iria dar um lucro de 10% ao Estado, e que noutra ocasião assegurava uma "supervisão intrusiva", tinha uma equipa permanente na instituição. Parte do problema está no modelo e não na ação de Carlos Costa - mas isso não livra o governador de ser o rosto de uma instituição que não previu nem evitou o colapso do Banif.

O terceiro é a decisão de recapitalização pública no final de 2012. Nessa altura já um relatório do Citigroup dizia que o banco era inviável. Em 2013 o próprio banco de Portugal apontava a nacionalização como a opção menos cara para o Estado.

Quarto ingrediente: as dificuldades adicionais colocadas pelo Banco de Portugal e por Bruxelas no pior momento possível: em outubro de 2015, logo após a equipa de Jorge Tomé ter feito o Banif regressar a lucros pelo primeira vez desde 2012.

Quinto: a desproporção de forças entre as autoridades nacionais e europeias. Governo e Banco de Portugal pouco ou nada conseguiram fazer para levar a sua avante. No final, a ideia de Bruxelas prevaleceu.

E isto leva-nos ao ingrediente que não tem estado presente - pelo menos em quantidade suficiente - nesta Comissão: o período que vai até 2012. Esse é o tempo em que o Banif se terá tornado um "banco péssimo". Foi escutado Marques dos Santos, antigo presidente do banco, que admitiu que houve créditos "que correram mal" porque para crescer e impor-se no sistema, o banco tinha de arriscar mais do que os outros. Houve o Banif Brasil - um negócio ruinoso. Houve os créditos cruzados com o BES, desenhados de forma a enganar o regulador. Houve tudo isto e não se fez nada.

A Comissão tem gasto muito tempo a discutir quem tem mais culpa: Passos e Maria Luís, ou Costa o primeiro-ministro, ou Costa o governador. Mas pouco ou nada se falou de Horácio Roque e pouco ou nada se insistiu com Marques dos Santos. Talvez esteja aí uma parte fundamental da resposta para o colapso do Banif. Esse seria um final alternativo deste filme série B que temos visto na Assembleia. Não seria um final à Leicester. Se calhar seria mais à Se7en - Sete pecados mortais. Mas pelo menos não defraudaria tanto os espetadores.

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