Bazuca contra bazuca

Agora que o Orçamento do Estado entrou na Assembleia da República, vale a pena falar de números e pode estar descansado que eu não vou regressar aos cenários macroeconómicos e às percentagens com que eles se cozinham. Crescimento de 5,5 ou défice de 4% dizem muito pouco ao comum dos mortais, mas se eu lhe disser que, números redondos, entre este ano e o próximo, os défices orçamentais vão obrigar Portugal a endividar-se em mais 20 mil milhões de euros, os números começam a fazer mais sentido.

Lembra-se do valor da famosa bazuca europeia que nos foi apresentada como um milagre que nos ia salvar dos terríveis efeitos económicos da pandemia? São tantos os números, é possível que não se recorde, mas eu digo-lhe, a preços correntes, andará à volta de 14 mil milhões de euros. De repente, se olharmos para o acréscimo de divida pública só em dois anos, o valor da bazuca já não impressiona assim tanto.

Em valores absolutos, aliás, a dívida do Estado é o equivalente a 20 bazucas. Imagine a capacidade financeira que teríamos para responder às crises, se em tempos de bonança fossemos gente de contas certas. E sabe que, por termos uma dívida deste tamanho, pagamos só em juros, sem amortizar capital nenhum, mais de sete mil milhões de euros por ano? É o valor que está destinado ao Programa de Resiliência. A bazuca europeia não chega para pagar dois anos de juros da dívida pública portuguesa. E a verdade é que estamos com juros historicamente baixos, imagine se eles começam a subir.

Lembre-se que o Mecanismo Europeu de Estabilidade e o Banco Central Europeu, cada um com cerca de 50 mil milhões de euros, são os nossos principais credores. A Europa que nos dá, é a Europa que nos empresta e é a Europa que recebe de volta parte significativa dos milhares de milhões de euros que pagamos para suportar o serviço de dívida.

E sabe porque é que importa estar agora a falar disto? Porque há sempre quem continue a pensar que o dinheiro cai do céu e que, assim sendo, o céu é o limite. Em momentos duros como o que vivemos, da política exigem-se duas coisas: Rigor na gestão do dinheiro que é do povo e coragem para fazer opções, não deixando ninguém para trás.

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