Bode expiatório

A propósito da persistência do surto pandémico na Área Metropolitana de Lisboa têm sido feitas duas observações que gostava de comentar hoje.

A primeira é a que nos diz que este surto veio comprovar a precipitação do processo de desconfinamento, que deveria ter sido adiado. Estou em desacordo com essa observação. O início de um processo de desconfinamento numa pandemia, enquanto o vírus está ainda entre nós, presume necessariamente a eventualidade de surtos. É por isso que ele exige uma monitorização rigorosa da realidade, para detetar o surgimento de um surto e combatê-lo de imediato. Foi isso que falhou, essa capacidade de deteção e antecipação.

Dia após dia os dados vinham confirmando uma situação complicada na Área Metropolitana de Lisboa, que foi sendo desvalorizada, pelo menos publicamente. Mesmo quando o problema era evidente, o discurso público desdenhava-o e as medidas dedicadas e localizadas para o resolver não eram anunciadas. Perdemos demasiado tempo.

Isto não significa que não deveríamos ter desconfinado, devolvendo às pessoas aquilo que é seu por direito natural: a liberdade. Isto significa que as autoridades de saúde pública não souberam atuar com rapidez para resolver o surto. É delas a responsabilidade.

E isto traz-me à segunda observação que tem sido feita, que tende a responsabilizar as novas gerações pelo surto.

Essa responsabilização está implícita em várias declarações políticas, do Presidente da República ao Primeiro-Ministro, passando pela DGS (a que tantas vezes falta o P de política: já ouviram as justificações da DGS para todas as manifestações e ajuntamentos que valida publicamente?).

E está igualmente implícita no conjunto de medidas aprovadas para conter o surto, boa parte delas dirigidas aos ajuntamentos de jovens, imaginados como bandos soltos de adolescentes de garrafas de álcool na mão a deambular pelas ruas.

Essa responsabilização não tem qualquer fundamento técnico. Ainda ontem os técnicos de saúde pública a negaram: não há relação causal entre o comportamento dos jovens e este surto. É por isso inaceitável que se permita, de forma mais ou menos velada, que a sociedade seja levada a pensar que há uma faixa populacional responsável por algo que pode levar ao internamento e morte de pessoas.

É a primeira vez nesta pandemia que se identifica tão claramente uma faixa populacional como sendo eventualmente responsável. Sem fundamento técnico, é revoltante esta tentativa de criar bode expiatório. E mesmo que o houvesse, não creio que seja politicamente aceitável que se coletivizem responsabilidades desta forma, estigmatizando.

Aquilo para que os técnicos têm chamado a atenção é para outra coisa: este surto pode estar relacionado com condições habitacionais, laborais e de transporte que não favorecem o distanciamento social. Populações vulneráveis socialmente, e agora sanitariamente, a que viramos as costas de cada vez que apontamos o dedo aos jovens que se ajuntam como forma de distrair as atenções. É mesmo isto que queremos fazer?

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