Calendário Lunar

Daqui a uns dias vou dois meses para a "Europa" tocar em 52 cidades.

Zarpo a 24 de Outubro e reentro "em definitivo" na pátria dia 16 de Dezembro. Ainda passamos por Lisboa e Porto (dia 4 no Hard Club e dia 5 Novembro no Capitólio, passe a publicidade), que também são Europa. De resto, tudo lá fora. Fazer uma digressão tão longa não é coisa inédita para nós. Hoje em dia são também estas as circunstâncias do negócio da música. Os músicos vão para a estrada, fazer itenerância, porque o dinheiro que geramos vai sempre parar às mãos dos mesmos. A justa redistribuição, essa é uma guerra que travamos com independência, aliados aos nossos "fãs", que compram os nossos discos e bilhetes. A juntar à pressão dos grandes grupos está a impunidade com que as pessoas consomem música sem pagar, um mal sem remédio.

Como somos pais, homens de família e cidadãos, como entrámos quase todos na segunda metade da idade da ternura, as nossas circunstâncias e as nossas prioridades mudaram. E como! À cabeça: as saudades que se traduzem na angústia e preocupação em não estarmos lá, ou seja cá. Somos todos homens dedicados ao serviço das nossas famílias, que não têm chefes, que agem tal como uma boa banda deve agir. Uns pelos outros, haja o que houver. Na lista também aparece a resistência mental e física que, no contexto de uma digressão, só se pode adquirir e renovar a cada noite que passa. Como vocalista, preparo-me e fico totalmente alerta em blocos de dez concertos. A cada décima data tenho uma reunião comigo mesmo, analiso-me e corrijo o que está mal. Cada um terá os seus truques e as suas maneiras de lidar com a empreitada e não valendo tudo, o objectivo passa não só pela sobrevivência a concertos e viagens de autocarro diárias, bem como manter uma qualidade alta de modo a não defraudar quem pagou bilhete. Muitos músicos que eram amados pelos fãs, sucumbiram à depressão de não ter chão.

É, por suposto, fácil de concluir que nestes dias antes da partida o coração pese. Entra-se também numa espécie de ciclo compensatório onde queremos fazer tudo ainda melhor, ensaiar mais, ir mais às compras, arranjar os dentes, aturar melhor as birras dos filhos. Chegaremos a Hamburgo, na Alemanha, primeiro concerto, já estafados ainda antes de começar a viagem épica. No segundo dia começará a descompressão (através de umas boas horas de sono) e mudaremos o chip para guerreiros da estrada, dois pares de jeans para dois meses, a vida num saco, a barba crescida. Também é nesse momento que faz sentido o que um dos meus colegas diz: "as tours são férias". Apesar de darmos concertos todas as noites, o facto de não estarmos em casa consciencializa-nos de que pouco ou nada podemos fazer senão dar apoio remoto. À medida que o tempo passa também enfiamos essa dor na mochila. E "relaxamos".

Sair de Portugal, provisoriamente, pode ser uma bênção. Andamos muito zangados uns com os outros e nem nos apercebemos que, se calhar, estamos bem melhor aqui do que em muitas das paragens que os Moonspell irão fazer, Barcelona por exemplo ou Londres em pleno brexit. Mas no estrangeiro, os carros mal-estacionados, as queixas constantes das pessoas, e a confusão que também existe, não a sentimos como nossa. Por isso nem perdemos um segundo a pensar nisso. Nada como "não nos dizer respeito" para finalmente relativizarmos. Não fico com saudades lá de fora, mesmo que se ache que "no estrangeiro me entendam melhor", é cá que vivo e que pago impostos. E é cá que guardo o verdadeiro amor. Ao não te queixes porque vais fazer o que gostas, tens muita sorte, prefiro um boa viagem amigo, vai lá vender o teu peixe, cuida de ti e não te esqueças nunca de regressar. Porque isto de se fazer o que gosta é daqueles pactos que assinamos muitas vezes cheios de dores mas o nosso trabalho é entreter, escondendo o enfado e a saudade. Quando saímos do palco eles voltam, com o sal das lágrimas, as fotografias dos filhos coladas ao teto dos beliches, uma vida portátil com bilhete de ida e muita pressa na volta.

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