Como António Costa desprezou estas europeias

"António Costa é primeiro-ministro de um país da União Europeia. Um dos que mais sofre quando esta tem convulsões"

Quando o responsável político mais importante do país afirma que as eleições para o parlamento europeu são uma avaliação ao seu governo, como diabo se quer que os cidadãos as levem a sério? Se é o primeiro-ministro de um país que se afirma profundamente envolvido na construção do projeto europeu a desprezar um dos poucos momentos em que os cidadãos são chamados a dar a sua opinião de como este deve ser conduzido, que raio querem que os cidadãos pensem sobre o seu papel na construção desse projeto?

Podem-me dizer que António Costa apenas verbalizou o que todos sabemos, ou seja, que as Europeias são vistas como umas eleições em que os cidadãos pensam em tudo menos nas consequências do seu voto para a União Europeia. Protesto, cartão amarelo, experiências de voto noutros partidos, o que seja. Até os jornalistas e comentadores (mea culpa), de tão viciados nesse modelo, esquecem o que está de facto em causa neste ato eleitoral.

Seja como for, importa lembrar: António Costa é primeiro-ministro de um país da União Europeia. Um dos que mais sofre quando esta tem convulsões, o que deve as suas principais transformações e até muito provavelmente a manutenção da sua democracia ao projeto europeu.

O mesmo se passa no resto da União Europeia. A diferença é que em muitos destes países estas eleições são a arena em que as forças democráticas e europeístas se confrontam com quer destruir o nosso modo de vida e o tal projeto que garantiu o mais longo período de paz na Europa, o mais próspero e conquistas sociais extraordinárias.

No fundo, somos todos cúmplices nesta espécie de suicídio da União Europeia. Mas não há como desmentir que os cidadãos dos seus vários países têm boas razões para alijar culpas. A construção de um projeto democrático exige comunicação permanente com os cidadãos, exige transparência, exige sobretudo que a participação na elaboração desse edifício seja promovida. O facto é que desde o primeiro dia nada disso foi feito ou, pelo menos, não de forma empenhada. Referendos repetidos até que se obtivesse a resposta desejada, processos burocráticos impossíveis de explicar, gigantesca distância entre as instituições europeias e os europeus.

Para as populações o projeto europeu era uma coisa que estava a ser construída por "eles". E devia ser boa. A vida melhorava, a paz subsistia, podíamos andar por todo o lado. Mal os problemas económicos começaram e a noção de que os nossos filhos não viveriam melhor do que nós, vieram também as questões culturais e identitárias que tão negligentemente foram esquecidas num continente com tantos séculos de história e com feridas que outros tantos séculos não chegariam para curar.

O futuro não é promissor e este imenso encolher de ombros não vai de certeza ajudar.

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